Introdução
Em pleno ano de 2025, enquanto o mundo debate a inteligência artificial e a transição energética, uma parte considerável da população de Castelo de Paiva ainda convive com uma realidade do século passado: a ausência de rede pública de saneamento.
O que para muitos é um gesto automático — puxar o autoclismo — para centenas de paivenses representa um dilema ambiental e de saúde pública que se arrasta há décadas.
O Cenário Atual e os Dados Oficiais
Embora o município tenha realizado investimentos recentes para expandir a rede — como a desativação de fossas na Ranha (Sobrado) e a extensão da conduta em Pedorido — a cobertura continua longe de ser universal.
- Freguesias Críticas: Zonas como Bairros, Raiva e o antigo Couto Mineiro do Pejão apresentam núcleos habitacionais que ainda dependem de fossas séticas individuais.
- A “Vergonha” Política: O tema é recorrentemente classificado como uma “vergonha” em períodos eleitorais, com críticas à estagnação de décadas na gestão das infraestruturas básicas por parte das sucessivas governações autárquicas.
Porque é que isto ainda acontece?
A persistência deste problema deve-se a uma combinação de fatores estruturais: - Orografia e Dispersão: O relevo acidentado de Castelo de Paiva e a construção dispersa dificultam a instalação de redes de gravidade, o que torna as obras tecnicamente complexas e financeiramente dispendiosas.
- Gestão de Investimentos: A dependência de fundos comunitários e a priorização histórica de outras infraestruturas (como as acessibilidades rodoviárias) deixaram o “invisível” submerso na lista de prioridades.
- Obrigatoriedade vs. Realidade: Embora a lei obrigue à ligação à rede quando esta passa a menos de 20 metros da propriedade, o custo da ligação e a inexistência de rede em vastas áreas tornam a norma inaplicável para muitos munícipes.
Impactos: Saúde, Ecossistema e os Rios
A falta de tratamento adequado não é apenas um problema de conforto; é uma ameaça direta ao património natural do concelho. - Ameaça aos Rios: Os rios Paiva, Arda e Douro sofrem com descargas diretas ou infiltrações de fossas mal isoladas. O Rio Paiva, considerado um dos menos poluídos da Europa, tem sido alvo de denúncias constantes devido a descargas de ETARs (Estações de Tratamento de Águas Residuais) ineficientes ou ligações clandestinas.
- Riscos para a Saúde: A contaminação de lençóis freáticos — de onde muitos ainda extraem água para consumo através de poços ou minas — aumenta o risco de doenças gastroentéricas e infeções bacterianas.
- Desequilíbrio Ecológico: A introdução de matéria orgânica não tratada consome o oxigénio das águas, provocando a morte de peixes e alterando a biodiversidade local.
Conclusão
Castelo de Paiva encontra-se numa encruzilhada. O saneamento básico não pode continuar a ser uma mera promessa eleitoral, mas sim uma garantia de dignidade e preservação. O futuro dos seus rios e a saúde dos seus habitantes dependem da coragem de investir no que não se vê, mas que define a qualidade de vida de uma comunidade.


