Vinte e cinco anos após a queda da Ponte Hintze Ribeiro, em Castelo de Paiva, o tempo atenuou o ruído mediático, mas não a dor de quem perdeu familiares na noite de 4 de março de 2001. O rio Douro segue o seu curso, mas na margem permanece a memória — preservada por duas famílias que, mês após mês, continuam a rezar junto ao monumento evocativo.
No local ergue-se o “Anjo de Portugal”, junto à ponte reconstruída que liga Entre-os-Rios, em Penafiel, a Castelo de Paiva. Ali morreram 59 pessoas — 53 passageiros de um autocarro e seis ocupantes de três viaturas. Trinta e seis corpos nunca foram recuperados.
O luto sem corpo e a oração como ritual
Arlindo Lopes perdeu três familiares — o irmão, a cunhada e um sobrinho de quatro anos. Desde então, regressa todos os meses ao memorial para rezar o terço. A romaria, hoje reduzida a duas famílias, é para si um gesto de resistência emocional e espiritual.
No interior da pequena capela inaugurada em 2003 encontram-se as fotografias e os nomes das vítimas. O espaço que outrora reunia dezenas de familiares é hoje marcado pelo silêncio. Ainda assim, a presença mantém-se.
Rosa Rodrigues, de 64 anos, perdeu um filho na tragédia. Continua a cumprir a promessa feita indiretamente ao próprio — rezar o terço, como ele lhe pedia. Ao seu lado está a filha, Flávia Pinto, que tinha apenas 10 anos quando a ponte caiu. Sem corpo para sepultar, o monumento tornou-se o único lugar de culto possível.
Justiça e sentimento de impunidade
A tragédia resultou num processo judicial que terminou, em 2006, com a absolvição de quatro engenheiros da extinta Junta Autónoma de Estradas e dois técnicos de uma empresa projetista pelo Tribunal de Castelo de Paiva. A decisão foi posteriormente confirmada pelo Tribunal da Relação do Porto.
O tribunal considerou que, à data das inspeções realizadas, não existiam normas técnicas suficientemente vinculativas que permitissem sustentar a responsabilidade criminal por negligência.
Para Arlindo Lopes, contudo, permanece um sentimento de injustiça:
“Os verdadeiros culpados foram encontrados. Não foram foi culpabilizados.”
Entre o presente e a memória
Hoje, a nova travessia assegura a circulação entre margens e simboliza a reconstrução física. Mas, para estas duas famílias, o luto não prescreve.
Enquanto a maioria encontrou outras formas de seguir em frente, ali permanece um ritual mensal que desafia o esquecimento. Entre a serenidade do Douro e o silêncio do memorial, a fé e a memória continuam a sustentar aquilo que a ponte não conseguiu: a ligação permanente entre os vivos e os que ali perderam a vida.


