Fernando Bizerra / Lusa

Numa carta aberta à Organização Mundial de Saúde, 239 cientistas pedem que a organização reveja as recomendações que tem emitido, alertando para o facto de a covid-19 poder transmitir-se pelo ar.

Numa carta dirigida à Organização Mundial da Saúde (OMS), 239 cientistas de 32 países apresentaram evidências de que partículas mais pequenas suspensas no ar podem infetar pessoas, ou seja, a covid-19 também se transmite pelo ar. Os cientistas pedem à organização que reveja as recomendações que tem divulgado.

O The New York Times teve acesso à versão inicial da carta aberta, que inclui exemplos que mostram que a transmissão por via aérea do novo coronavírus é possível em espaços mal ventilados ou cheios. De acordo com a carta, que será publicada esta semana na revista científica Clinical Infectious Diseases, sistemas de ventilação em escolas, lares de idosos e empresas poderão ter de ser adaptados para minimizar a circulação do ar.

Segundo a OMS, o vírus SARS-CoV-2 é transmitido maioritariamente através de contacto e pequenas gotículas respiratórias que, depois de expelidas pelas pessoas, não ficam no ar e caem rapidamente para o chão ou outras superfícies.

Os 239 médicos signatários acreditam que a organização refere-se apenas a gotículas maiores e não está a considerar a possibilidade de pequenos aerossóis, que também são emitidos por pessoas, ficarem no ar. “Sabemos desde 1946 que tossir e falar gera aerossóis”, explicou Linsey Marr, especialista da Universidade Virgina Tech, nos EUA.

A líder técnica de controlo da infeção da OMS, Benedetta Allegranzi, sustenta, por sua vez, que as provas da propagação do vírus por via aérea ainda não são convincentes. “Em especial nos últimos meses, temos afirmado várias vezes que a transmissão por via aérea é possível, mas não há provas sólidas nem irrefutáveis”.

A OMS admite que a transmissão aérea é possível, mas refere que acontece apenas em ambientes em que são geradas gotículas inferiores a 5 microns (alguns procedimentos médicos, por exemplo).

A especialista na transmissão aérea de vírus da universidade norte-americana argumenta, contudo, que a maioria das experiências da OMS são realizadas em ambiente hospitalar onde há uma boa ventilação do ar. A especialista explica que na maioria dos edifícios “a taxa de renovação do ar é muito mais baixa, permitindo que o vírus se acumule no ar e represente um risco maior.”

Paul Hunter, membro do comité de prevenção de infecções da OMS e professor de medicina na Universidade de East Anglia, no Reino Unido, disse que a OMS tem de saber gerir as recomendações que podem ser difíceis de cumprir. “A transmissão de aerossóis pode ocorrer, mas provavelmente não é assim tão importante”, disse ao NYT.

“Controlar a transmissão por via aérea não vai fazer muito para controlar a propagação da covid-19. Vai impor custos desnecessários, particularmente em países que já não dispõem de pessoal ou recursos suficientes”, acrescentou.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

16 − 14 =

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.