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Home - Ciência - Milena Canning não consegue ver nada (a não ser que as coisas se mexam)

Ciência

Milena Canning não consegue ver nada (a não ser que as coisas se mexam)

Redação
Last updated: 15 Junho, 2018 10:00
Redação
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jcoterhals / Flickr

Uma equipa de cientistas desenvolveu o mais extenso mapa do cérebro de uma pessoa com uma forma de cegueira extremamente rara. Para Milena Canning, todos os objetos são invisíveis (a não ser que se comecem a mexer).

De acordo com o Science Alert, Milena Canning não nasceu cega. Tudo aconteceu há 18 anos depois de uma infeção respiratória, uma série de AVC e oito meses em coma. Seis meses depois de acordar, a escocesa de 48 anos começou a ver os reflexos das coisas de uma forma estranha, algo parecido com fogo de artifício.

Dois anos depois deste incidente, a mulher visitou o oftalmologista Gordon Dutton e era cada vez mais notório de que a situação estava a piorar. No entanto, Milena conseguiu ver o reflexo dos movimentos dos seus braços no espelho e distinguir as cores de grandes objetos em movimento.

“A paciente consegue ver a chuva a escorrer na janela, mas não consegue ver através dela”, escreveu o oftalmologista num artigo científico de 2003. “Quando a filha se está a afastar, a paciente consegue ver o rabo de cavalo da menina a mover-se de um lado para o outro mas não consegue ver a filha. Consegue ver o movimento da água a descer pelo ralo da banheira mas não consegue ver a filha no banho”, escreveu ainda.

Então, o médico recomendou a Milena que usasse uma cadeira de baloiço para melhorar a sua visão e, com o tempo, a escocesa foi aprendendo a mover a cabeça de um lado para o outro para conseguir ver o que estava à sua frente. Porém, segundo o mesmo site, a sua rara condição de saúde continuava a ser um mistério, por isso, Dutton pediu ajuda ao Western University’s Brain and Mind Institute, em Londres, cidade no Canadá.

Nesse instituto, a neuropsicóloga Jody Culham e uma equipa de investigadores realizaram uma série de testes e análises para perceber o caso. O grupo concluiu que Milena tinha uma coisa chamada síndrome de Riddoch, também conhecida por dissociação estatocinética, que é quando alguém cego consegue ver objetos em movimento.

Um dos exames feitos ao cérebro da paciente escocesa Milena Canning

Esta condição é causada por lesões no lobo occipital, a região do cérebro responsável pelo processamento da visão. O síndrome oposto, em que o paciente só consegue ver objetos estacionários também existe e é chamado de akinetopsia.

“Falta-lhe um pedaço do tecido cerebral do tamanho de uma maçã na parte de trás do cérebro – quase todos os lóbulos occipitais“, explica Culham. “No caso da Milena, achamos que a ‘super-autoestrada’ para o sistema visual chegou a um beco sem saída. Mas, ao invés de desligar todo o sistema visual, desenvolveu algumas ‘estradas secundárias’ que podem contornar esta autoestrada para conseguir ter alguma visão – especialmente movimento – para outras partes do cérebro”.

A equipa de investigadores descobriu que a paciente conseguia ver uma bola a vir na sua direção e apanhá-la, além de conseguir andar à volta de cadeiras. No entanto, a sua capacidade de identificar cores era inconsistente e só podia dizer com precisão se a mão de alguém estava com o polegar para cima ou para baixo na metade das vezes.

Segundo o Science Alert, este caso dá uma boa perspetiva da plasticidade do cérebro, juntando-se a outros exemplos de como o cérebro dos humanos e dos animais é capaz de se adaptar mesmo quando está danificado.

“Esta investigação é capaz de ser a mais rica caracterização alguma vez conduzida do sistema visual de um único paciente. Ela mostrou esta profunda recuperação da visão com base na sua perceção dos movimentos“.

“Os pacientes como a Milena dão-nos uma noção do que é possível e, ainda mais importante do que isso, mostram-nos quais são as funções visuais e cognitivas que andam juntas”, acrescenta. O estudo foi publicado, em maio passado, no Neuropsychologica.

TAGGED:Ciência & SaúdeDestaqueNeurologiasaúde
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