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Crónica: a era do estreitamento entre o nascimento e a morte

“Perdemos tempo a publicar na internet o que chamo de: “máscara de uma vida social perfeita”, que é o que queremos passar para a sociedade com um propósito de aceitação, por quê? Porque estamos sós.
Em resumo perdemos tempo a reproduzir uma realidade para escapar do mal que assola a humanidade, a solidão. E se pensarmos que quando morrermos tudo isso cairá no esquecimento, que foi tudo em vão, perceberemos o quanto perdemos tempo com coisas fúteis enquanto poderíamos estar observando melhor o que a vida tem e pode nos proporcionar.” disse o escritor
“Postei essa observação e uma modelo famosa respondeu: ‘Acho que o que nos faz feliz é o que importa. Ou seja, me faz feliz ficar a publicar minha vida na internet, me faz feliz estar a amar um visual e ficar a publicar fotografias dele na internet’. Existem percepções que não são discutíveis e que estão dentro de uma razão.
Se a mulher se veste bem para o seu marido ou para sua família, ela não publicaria em uma rede social para que todos vejam. Portanto não tem outra explicação com a rede social que não seja a necessidade de ser vista pela sociedade. Se isso a faz feliz não importa porque a pessoa se sustenta na possibilidade de estar a ser notada. Mas na verdade ela está em uma solidão atrás de um aparelho. Ou seja, é uma necessidade. Quem tem uma felicidade plena tem tempo de estar na mídia social postando? Ou a cultura está a transferir tudo isso?”, indaga o especialista.
Fabiano de Abreu reitera sua percepção de que a mídia social é unicamente para quem quer ser visto e quem quer ser mostrado: “Isso é um fato! A pessoa cria circunstâncias, situações e só posta o que é feliz. A mídia social é a ideia que a pessoa quer mostrar para que o mundo veja dela. Que sua vida é linda, maravilhosa e perfeita. Isso é a mídia social, sendo que a cultura social está a fazer com que isso seja uma obrigação. As pessoas que não tinham necessidades de serem vistas acabam por render-se à media social porque já tornou-se uma obrigação cultural. Como se você estivesse fora da sociedade. Então no que está a resultar tudo isso? Em uma completa solidão. E quando a pessoa perceber, a vida já passou e ela não dedicou seu tempo para respirar, para poder observar, para poder perceber, para poder ter conhecimento e não ser preso a uma única realidade”.
“Essa necessidade cultural da mídia social para mim é perigosa e o futuro pode ser muito perigoso. Podemos ser dementes como máquinas. Então temos que pensar em tudo isso pois o exagero não é bom em nada. Até água se você beber exageradamente não faz bem. Tudo na vida precisa de um meio termo, assim como a internet. Isso está a resultar num futuro trágico de solidão e até mesmo uma anti-procriação. Estamos a perder a natureza. A tecnologia afastou o ser humano da natureza, mas a natureza é de onde viemos. Afastar-se dela é perder a identidade e começar uma contagem regressiva para o fim”, alerta o escritor, filósofo e pesquisador histórico.
“A partir do momento que nós não notamos a natureza e não cuidamos dela, vamos acabar com ela e se ela acabar não vivemos, não respiramos, não comemos e será o fim da humanidade. Esta é a teoria, mas e qual sua solução? A solução está na educação. É educando crianças para saberem diferenciar, para saberem moderar, fazer com que isso seja de modo moderado. Senão teremos seres humanos dementes no futuro”, conclui.