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Crónica: Surfista de alma

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Divulgação

O dia de um surfista de alma começa sempre com adrenalina. Como estará o mar? Será que está ventando? Entrou o swell previsto? A sua vida passa a ser recheada de expectativas. O mar será generoso para eu viver mais uma aventura?

Aprendi que nenhum onda é igual a outra, todos os dias são diferentes. Assim como as ondas, tudo depende da direção do swell, o tempo, a direção do vento, o fundo de areia perfeito para aquele dia, etc.

Quando um surfista vai atrás de ondas perfeitas, como por exemplo viajar ao Hawaii, ele tem de estar preparado e com pranchas adequadas para as ondas e tamanhos de mar que vai encontrar. Sua rotina passa a depender do oceano.

Quando não tem onda, pois mesmo no Hawaii isso acontece, o surfista procura se distrair com esportes alternativos.

Alguns jogam tênis, fazem trilhas a pé ou de moto, correm, mergulham, nadam , malham e todo cuidado é pouco para não se machucar e perder as ondas quando o swell entrar. Afinal, ele foi ate lá para isso, pegar as ondas havaianas.

Já aconteceu do cara investir uma grana numa viagem e passar 30 dias no Hawaii sem ondas. No dia que ele levantou vôo, pela janelinha do avião observa as linhas perfeitas entrando nas bancadas de coral. O mar subiu. Lindo!

Quando isso acontece não adianta lamentar, tem que se conformar e aceitar. É difícil, mas faz parte dos riscos do esporte. Quem manda no surfista é o mar. Não só nele, em todos nós mortais e moradores desse planeta.

Do mar vem o sustento, saúde e diversão. E nossas praias estão cada vez mais sujas e impróprias para o banho. Temos que lutar pelas nossas águas e a faxina deve começar pelo nosso quintal, por isso estou promovendo o “Rio Águas Limpas!”, com o objetivo de cobrar das autoridades a despoluição e limpeza das lagoas da Barra da Tijuca, prometidas para Olimpíadas.

Quando falo em águas limpas e mar cristalino logo me vem à cabeça as 7 ilhas havaianas onde já visitei: Ohawu, Maui e Kauai. Na minha primeira vez no Kauai, fiquei impressionado com a tranquilidade do lugar.

Um Hawaii country, com fazendas, cavalos, vacas, onde tudo fecha às 20h, se você não comprou sua comida vai passar fome, pois não haverá mais mercado nem restaurantes abertos. Cheguei de viagem a noite e quase não consegui dormir pela expectativa de ver o mar no dia seguinte, conhecer Hanaley Bay quebrando, pois a previsão era de 6 a 8 pés.

Acordei às 5h e já fui para praia olhar. Esperei clarear já pronto para cair, mas Hanaley não estava bom e então um local me recomendou outro pico. Era Cannos, uma esquerda em cima de uma bancada rasa de coral que eles chamam de Pipeline do Kauai.

Para chegar ao pico você tem de caminhar pelos corais uns 50 metros até achar um canal estreito que quando a maré enche você sai remando. Quando entrei as ondas tinham uns 4 pés, perfeitas esquerdas, um drop difícil, mas que se você conseguisse completar ficava lá dentro.

Cheguei a surfar umas 2 ondas boas e quando achei que iria melhorar percebi que os caras que estavam na água haviam saído e um havaiano passou por mim e disse: “cuidado!”…na verdade não entendi o resto. Continuei no mar por mais uns 15 minutos sentado sozinho e nenhuma onda apareceu.

Até que percebi uma corrente me levar para fora. A maré estava secando e o mar subindo. Veio a série, remei mas não consegui passar a parede e tentei dropar assim mesmo. Cai lá de cima atingindo o coral com as costas, minha cordinha enrolou e fiquei preso no fundo, sem poder ir a superfície respirar. Achei que iria morrer, minha vida passou toda pela cabeça: a escola quando pequeno, meu avô, meu pai, minha mãe, irmão, filhos tudo em uma fração de segundos, até que consegui me soltar já meio desmaiado e todo lanhado, sangrando nas costas e num dos punhos.

Minha prancha ficou presa nos corais eu me deitei na areia e agradeci estar vivo pensando: “Se um dia eu tiver um filho ele irá se chamar Kauai”. A praia estava deserta, não tinha ninguém mais na areia.

Uma mulher que morava ali em frente percebeu meu estado e me conduziu até sua casa. Lavou minhas feridas com água doce, cortou umas folhas de babosa de seu jardim e passou a gosma em meus machucados dizendo: “Fique longe dos rios, pra nao infeccionar, (as águas são contaminadas pela urina das criações de porcos nas beiras dos rios) em 3 dias você ficará bom”, profetizou.

E foi exatamente o que aconteceu. Em 3 dias estava surfando com minhas feridas saradas. Nessa viagem aprendi algumas lições: nunca entrar no mar sem antes conhecer bem o pico e também sempre olhar a tábua da maré para nunca mais ser pego de surpresa. Além da babosa, que passei a plantar e usar quando meus filhos viessem a se ralar em corais ou mesmo caindo do skate.

Um ano depois voltei ao Kauai e fui direto surfar em Cannos para tirar o trauma desse acidente. O mar estava menor mas muito oco. Entrei e a primeira onda que dropei caí e quase morri de novo, saindo da água todo ralado pelos corais. Daí em diante nunca mais tive vontade de voltar a surfar aquela esquerda traiçoeira .

Seis anos depois voltei lá com meu filho Kauai, já com 5 anos e disse pra ele: “Foi aqui que o papai quase morreu. Você tem esse nome por causa dessa onda”, e ele disse: “Vai lá dady surfar”, e eu: “Não filho, essa onda nunca mais, a gente deve ter humildade pra entender o recado da natureza, essa onda já serviu pra você ter esse nome.”

Por isso penso que nada mesmo é por acaso, de tudo se tira uma lição, até os acidentes e as ondas que pegou e as que ainda irá surfar na sua vida, de surfista de alma! Boas ondas sempre! Kadu Moliterno.

Kadu Moliterno – Ator brasileiro


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