A cor dos teus olhos sempre me fascinou,
não pelo seu castanho aparentemente banal,
mas por tudo aquilo que se escondia por detrás:
toda a inocência que parecia perdida
e a altivez que parecias não querer sentir.

Mas foi muito mais que isso: foi a confiança
de que agora era a sério, de que finalmente
seríamos um do outro, éramos um para o outro.

Foi o quebrar de barreiras a que te permitiste
desde um primeiro momento, foi o mistério por
desvendar que me intrigou e fez ansiar por mais,
e o engenho com que te assomavas a todos os desafios
como se deles todas as nossas conquistas dependessem.

Foi tudo aquilo que és e que soubeste ser,
mas que nenhum outro tinha conseguido antes de ti.

Se pedisses que te contasse a razão de tudo
o que não digo, ver-me-ias calada e atenta
ao silêncio que reina hoje entre nós.

Por vezes, as palavras estão a mais
e nada acrescentam ao passar lento dos dias.
Já nem o calor existe. O arrefecer
dos corpos é inevitável e a fronteira
que nos separa do fim não tem árvores
nem as flores que outrora floriram.
Já nem o vento sopra guiando cada coisa a seu lugar.

Os dias precipitam-se, mas as palavras não;
essas não escorrem dos meus lábios nem saem
da tua mente para o mundo. Não queres ser tu
o primeiro e não quero ser eu quem dite o fim.

Mas era inevitável esse final de história,
pressenti-o desde o início, desde o momento
em que nos olhamos de frente e os nossos
vislumbres se cruzaram.

Era demasiado real para ser verdade.
O arquiteto desenhara uma obra prima
para a qual o nosso pequeno mundo
não estava ainda preparado e falhámos.

Falhámos no que não soubemos dizer e viver.
Falhámos mutuamente em momentos que deveriam
ser de perfeição e abandono.

Até que o inevitável aconteceu:
perdemo-nos num mundo que deveria ser nosso,
mas no qual permitimos entrada livre.

Aprendemos a lição, mas ela ficará para uma próxima.
Já não seremos tu e eu, não mais as nossas mãos entrelaçadas
e os olhares cúmplices a que já nos tínhamos habituado.
Serão outros felizes graças ao que nós, juntos, não soubemos ser.

Ana Cristina Silva


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