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Montepio com prejuízos de 56,8 milhões. Salvação passa por um “Fundo mau” para os activos tóxicos

O Banco Montepio registou um prejuízo de 56,8 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano depois de ter anunciado lucros de 17,7 milhões em 2019. Dados que agravam a situação do Banco, cujo futuro passa pela criação de um “veículo” que absorva os activos tóxicos.

Após o alerta efectuado por um grupo de associados que apontou que o grupo Montepio “está em risco”, o Banco que é o seu principal activo divulgou prejuízos de 56,8 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano.

Em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o banco diz que a margem financeira se situou em 173,1 milhões de euros naquele período, face aos 180,4 milhões de euros registados no período homólogo do ano anterior.

Este valor incorpora, segundo o Montepio, “os efeitos desfavoráveis” da pandemia de covid-19 e que “determinaram menores níveis de actividade nos clientes particulares e nas empresas, a par da manutenção de taxas de juro de mercado em níveis reduzidos e/ou negativos”.

O principal problema do Banco é “a falta de crédito”, de acordo com o professor universitário Pedro Corte Real, um dos sócios da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG), a detentora da instituição financeira, que vieram a público apelar à intervenção “urgente” do Governo para salvar o grupo.

Mutualista deverá ficar com activos tóxicos do Banco

“O Montepio não demonstra capacidade para gerar resultados tributáveis suficientes” e “está em risco na sua continuidade”, alertou Pedro Corte Real.

A solução para o Banco deverá passar pela transferência dos seus activos tóxicos (o crédito malparado e os imóveis) para um “veículo” financeiro que deverá ficar nas mãos da Associação Mutualista, como admite uma fonte oficial da entidade ao Jornal de Negócios.

Esse instrumento “encontra-se em estudo no grupo, com o contributo de entidades externas e internas especializadas”, refere a mesma fonte, notando que a sua criação vai permitir libertar capital para aumentar as possibilidades de o Banco conceder crédito.

As mais-valias que possam resultar desse eventual fundo “mau”, com os activos tóxicos do Montepio, deverão reverter para os associados da Mutualista.

A AMMG tem mais de 600 mil associados e é a maior associação mutualista do país.

Em 2019, apresentou lucros consolidados de 6 milhões de euros e prejuízos individuais de 408,8 milhões de euros, devido ao reforço de imparidades sobretudo para o banco Montepio por imposição de uma auditoria externa.

O Banco representa 87% dos activos consolidados da Mutualista.

A ideia de criar uma espécie de “Banco mau” já tinha sido anunciada pelo grupo de associados que apelou à intervenção do Governo, denunciando a difícil situação financeira do grupo.

A administração da Mutualista veio “repudiar” aquela iniciativa, lamentando que teve “forte impacto na confiança” na marca Montepio.

Juros baixos prejudicaram o Banco

No comunicado enviado à CMVM, o Banco Montepio refere que a evolução da margem financeira nos primeiros nove meses, quando comparada com o período homólogo de 2019, evidencia o impacto favorável resultante da diminuição do custo de ‘funding’ e os efeitos desfavoráveis relacionados com os menores juros do crédito a clientes, via volume e taxa, com a redução dos juros da carteira própria e, ainda, com o incremento dos juros nas emissões de dívida subordinada.

As comissões líquidas, por sua vez, totalizaram os 84,5 milhões de euros, face aos 87,1 milhões de euros registados no período homólogo de 2019, evidenciando o impacto da redução da atividade económica iniciada no primeiro trimestre, e que se estendeu nos trimestres seguintes devido à pandemia, justifica.

Os resultados em operações financeiras ascenderam a 6,7 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2020, evoluindo desfavoravelmente face ao valor de 46,9 milhões de euros registado em igual período de 2019, evidenciando os maiores ganhos não recorrentes na alienação de títulos realizados em 2019 e os menores resultados com derivados contabilizados nos primeiros nove meses de 2020.

Os outros resultados de exploração situaram-se em -10,2 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2019, comparando com 1,3 milhões de euros contabilizados no período homólogo de 2019, traduzindo, essencialmente, os ganhos, em 2019, de 9,7 milhões de euros com a alienação de activos contabilizados ao custo amortizado e de 11,5 milhões de euros com a venda de uma carteira de créditos NPL (sigla de ‘non performing loans’ que significa rácio de crédito malparado).

Os custos operacionais totalizaram os 192,8 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2020, face aos 189,7 milhões de euros registados no período homólogo de 2019, “evidenciando os efeitos da actualização salarial e dos investimentos concretizados em renovação e modernização tecnológica no âmbito da transformação digital que o Banco Montepio tem em progresso, apesar das sinergias capturadas na renegociação de alguns contratos, em particular nos custos com consultoria e com conservação e reparação de imóveis”.

A imparidade do crédito contabilizada nos primeiros nove meses de 2020 atingiu 140 milhões de euros, demonstrando um aumento de 65,9 milhões de euros face ao valor divulgado no período homólogo de 2019, incorporando o incremento do risco de crédito determinado pela pandemia covid-19 e também do reforço dos níveis de imparidade em algumas exposições creditícias que se encontravam em incumprimento.


Fonte: ZAP