Maxim Shipenkov / EPA

No que toca à imunidade, as mulheres são o sexo mais forte e talvez por isso estejam a ser menos vítimas da Covid-19. A maioria das mortes em todo o mundo são do sexo masculino, suplantando, nalguns países, mais de 60% dos óbitos. A explicação para esta realidade pode estar nos genes.

Os dados alusivos à Europa da Organização Mundial de Saúde (OMS), relativos ao período entre 6 e 12 de Abril, constatam que 60% dos mortos com Covid-19 são homens.

Em Portugal, não se verifica uma disparidade tão grande entre sexos no número de mortes. Aliás, os números redondos indicam que até morreram mais mulheres (414) do que homens (406), de acordo com dados de 23 de Abril da Direcção Geral de Saúde (DGS). Contudo, é preciso considerar que as mulheres infectadas suplantam os homens, com uma diferença de 13.214 casos confirmados no sexo feminino contra 9.139 no sexo masculino. E nas faixas etárias entre 70-79 anos e 60-69 anos morreram mais homens do que mulheres, respectivamente 98 contra 70 e 48 contra 23.

Noutros países, a diferença nos óbitos entre sexos é mais evidente, com as mortes de homens a dominarem as listas estatísticas da Covid-19 em países como Grécia, com 74% de mortos do sexo masculino, Itália (65%), Espanha (60%) e China (64%), segundo dados da Global Health 50/50, uma plataforma internacional não governamental na área da Igualdade de Género focada no sector da Saúde. Estes valores reportam-se ao período até 22 de Abril.

A explicação para esta diferença pode estar nos genes, conforme avança a geneticista Jenny Graves, professora na Universidade La Trobe, na Austrália, num artigo na publicação The Conversation, onde fala da “interacção” de diversos factores, designadamente das hormonas e do sistema imunitário.

“A resposta diferente de homens e mulheres é típica em muitas doenças em muitos mamíferos”, começa por constatar a professora de Genética, realçando as distinções biológicas entre os sexos.

Jenny Graves repara que homens e mulheres “diferem nos cromossomas do sexo” e nos genes que os constituem. “As mulheres têm duas cópias de um cromossoma de tamanho médio (chamado X)”, enquanto “os homens têm apenas um único cromossoma X e um pequeno cromossoma Y que contém poucos genes”, aponta.

Os genes deste cromossoma Y, designados SRY, promovem o desenvolvimento das hormonas masculinas que fazem com que o embrião se torne num rapaz. Esse cromossoma Y está repleto de “sequências repetitivas”, ou seja, “ADN lixo”, como refere a professora de Genética. “Talvez um “Y tóxico” possa perder a sua regulação durante o envelhecimento” e, deste modo, “acelerar o envelhecimento nos homens e torná-los mais susceptíveis ao vírus”, aponta a geneticista.

Esta especialista lembra ainda que a testosterona, “as hormonas masculinas libertadas pela acção do [gene] SRY”, são “implicadas em muitas doenças, particularmente nas doenças cardíacas, e podem afectar a esperança média de vida”.

As doenças cardíacas e a idade são, precisamente, dois dos factores de risco associados à Covid-19, bem como a diabetes e o cancro. Ora os homens sofrem tendencialmente mais destes problemas. Mas as mulheres vivem, em média, mais seis anos do que os homens.

O facto de os homens terem “baixos níveis de estrogénio” também os prejudica, segundo Jenny Graves que sustenta que, por outro lado, isso protege as mulheres de “muitas doenças, incluindo as doenças cardíacas”.

As hormonas masculinas também influenciam o comportamento, considerando-se que os níveis de testosterona podem estar directamente relacionados com “comportamentos de risco” como fumar e beber demasiado álcool, aponta ainda a especialista.

Se tomarmos o exemplo da China, quase metade da população masculina fuma enquanto apenas 2% das mulheres o faz – isto pode ajudar a explicar a diferença nos óbitos, com os homens a constituírem 64% das mortes relacionadas com a Covid-19.

Jenny Graves fala ainda do facto de as mulheres terem um par de cromossomas X, notando que estes intervêm em funções relacionadas com “metabolismo de rotina, coagulação sanguínea e desenvolvimento do cérebro”. “A presença de dois cromossomas X nas mulheres XX fornece um tampão se um gene num dos X for mutado“, enquanto nos homens, dada a composição XY, falta esta “cópia de segurança”, salienta a geneticista.

“É por isso que os rapazes sofrem de muitas doenças relacionadas com o sexo, como a hemofilia (baixa coagulação do sangue)”, constata ainda a professora.

As mulheres podem também tirar vantagem do “benefício de 2 versões diferentes de cada gene”, diz Jenny Graves, concluindo que “têm um sistema imunitário mais forte do que os homens”, o que as torna “mais susceptíveis para o aparecimento de doenças auto-imunes como o lúpus e a esclerose múltipla”, mas constitui “uma vantagem quando se trata da susceptibilidade a vírus”.

“Há, pelo menos, 60 genes de resposta imune no cromossoma X e parece que uma dose mais alta e duas versões diferentes dão às mulheres um espectro mais amplo de defesas”, aponta ainda a professora de Genética.

“As mulheres não são o sexo mais fraco quando se trata de imunidade“, reforça o farmacêutico Salvatore J. Giorgianni, consultor científico sénior da Men’s Health Network, organização sem fins lucrativos que tem sede nos EUA e que se dedica à promoção da Saúde masculina, em declarações à publicação Healthline.

Por outro lado, é preciso considerar ainda questões culturais, já que os homens tendem a procurar ajuda médica mais tarde, perante sintomas de doença.

“Muitos homens vêem o auto-cuidado como uma admissão de fraqueza“, nota à Healthline David Ezell, director da instituição de saúde mental norte-americana Darien Wellness. “Somos ensinados a ser auto-suficientes e presentes para todos menos para nós mesmos. Isso resulta em ignorar sintomas reveladores não apenas da Covid, mas de qualquer outra condição com risco de vida”, conclui.

SV, ZAP //

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