A preocupação tem aumentado por parte da comunidade científica, em torno da vacina russa Sputnik V. Especialistas afirmam que o desenvolvimento pouco transparente e a falta de testes em massa pode ser um problema ainda maior do que o vírus.

As atuais dúvidas dos cientistas partem de vários princípios. Um deles tem por base um estudo de Scott Halstead, um virologista da Universidade do Hawai, em 1977. Quando estava a estudar a dengue, Halstead percebeu uma característica da doença que agora é bem conhecida, mas na época se mostrou inesperada.

Alguns animais que já tinham sido expostos a um dos quatro vírus relacionados com o vírus da dengue, e produziram anticorpos contra ele, ficaram novamente doentes quando infetados pela segunda vez. Segundo o The Guardian, foram os anticorpos produzidos pela primeira infeção que permitiram que a segunda infeção se propagasse pelo corpo.

Este efeito foi chamado de ADE. A razão pela qual é importante, em plena pandemia de coronavírus, é que situações inesperadas como o ADE são o tipo de problema que os investigadores de vacinas procuram nos testes da fase 3; testes esses que ainda não foram realizados na recém-aprovada Sputnik V.

Mesmo antes do anúncio oficial da Rússia, muitos especialistas alertaram sobre programas acelerados de desenvolvimento de vacinas na Rússia e nos EUA.

Kevin Gilligan, virologista e consultor sénior da Biologics Consulting, alertou ainda em junho, à Nature Biotechnology, que “o ADE é uma preocupação genuína, porque se o tiro for disparado e uma vacina que potencialize a doença for distribuída, isso será pior do que realmente não vacinar”.

Esta semana, após a Rússia anunciar que está a avançar com a produção em massa da Sputnik V, a preocupação de especialistas como Gilligan aumenta.

A comunidade científica acredita mesmo que os russos se precipitaram. Ainda assim, a Rússia descreve as alegações de que a vacina não é segura como infundadas e, na quarta-feira, prometeu lançá-la em apenas duas semanas.

Entre os especialistas que mencionam o ADE como preocupação está Danny Altmann. O professor de imunologia do Imperial College garante que o grande problema é que o trabalho de desenvolvimento da vacina na Rússia não foi transparente, e que ninguém sabe realmente se é seguro ou eficaz aplicá-la na população.

“Acho que os cientistas russos se precipitaram”, disse Altmann ao The Guardian.

Altmann explica que a abordagem ideal seria comparar pelo menos 150 vacinas candidatas de forma transparente, usando os mesmos critérios de teste, para garantir que o mundo receba a melhor vacina, e não apenas a primeira. “O motivo pelo qual pedimos transparência e revisão é porque esses fatores são muito sérios” disse o cientista.

Para Ian Jones, professor de virologia da Universidade de Reading, o maior risco é que “a imunidade gerada não seja suficiente para dar proteção, levando à contínua disseminação do vírus mesmo entre os imunizados”, citou o especialista num comunicado publicado no Science Media Center.

“Uma vacina má é pior do que nenhuma vacina”, remata Jones.

Num artigo de opinião para o New York Times, Natalie Dean, professora assistente de bioestatística na Universidade da Florida, sinalizou muitas das mesmas questões levantadas por Jones, acrescentando que hesitaria em tomar uma vacina que parecia ter sido aplicada “às pressas”.

Dean realça a importância dos testes na fase 3. “Não queremos que as pessoas que estão apenas ligeiramente protegidas se comportem como se fossem invulneráveis, isso poderia agravar a transmissão”, disse.

A professora destaca o aspeto económico do desenvolvimento de vacinas, explicando que o dinheiro pode estar a ser mal aplicado, uma vez que “é caro lançar uma vacina, e pode-se estar a desviar a atenção de outros esforços que sabemos que funcionam, como usar máscaras e testar vacinas melhores”.

A última coisa que os estudos da fase 3 fazem é examinar a segurança, permitindo que efeitos colaterais mais raros sejam detetados. Um desses efeitos é um fenómeno paradoxal conhecido como aprimoramento imunológico, no qual o sistema imunológico de uma pessoa vacinada reage exageradamente à infeção.

No caso de muitas pessoas, que tomaram a vacina, terem este tipo de reação e precisarem de cuidados médicos pode ser “um sinal claro de que a hospitalização é maior entre a população vacinada o que marcaria o fim da vacina”, conclui Dean.


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