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Farmacêuticas gastam 10 mil milhões de dólares por ano para nos convencer a comprar medicamentos

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As farmacêuticas norte-americanas gastam, anualmente, 30 mil milhões de dólares (26 mil milhões de euros) em marketing, sendo 68% desse valor utilizado para “convencer os médicos a prescrever os seus medicamentos”. No entanto, nos últimos 20 anos, foi o marketing direcionado para o consumidor que quadriplicou, passando de 2,1 para 9,6 mil milhões de dólares.

Segundo um artigo do Ars Technica, divulgado na passada sexta-feira, este é um dos resultados de uma análise sobre o marketing das farmacêuticas e a forma como estas “convenceram a população a gastar enormes somas em cuidados de saúde“, entre 1997 e 2016.

O estudo, desenvolvido pelos especialistas Lisa Schwartz e Steven Woloshin, de Dartmouth (Estados Unidos), mostra que os gastos dessas empresas em marketing passou de 17,7 mil milhões de dólares (cerca de 15 mil milhões de euros) em 1997 a 29,9 mil milhões (à volta de 26 mil milhões de euros) em 2016.

Enquanto isso, os gastos em saúde, no país, atingiram os 3,3 biliões de dólares (2,9 biliões de euros), ou seja, 17,8% do PIB, em 2016.

O facto de as empresas farmacêuticas gastarem “a maior parte da sua força de marketing com os médicos não é, contudo, surpreendente”. Já em 1997, 88% (15,6 mil milhões de dólares – 14 mil milhões de euros) do marketing destinou-se “a médicos influentes”, revela a análise.

O método utilizado para atrair os médicos “também não mudou muito”: as farmacêuticas enviam representantes de vendas aos consultórios, que fornecem amostras gratuitas de medicamentos e outros prémios, oferecendo ainda viagens – com alojamento e alimentação incluídas -, para eventos sobre “educação de doenças”.

A novidade à volta deste assunto, avança o Ars Technica, é sim a “explosão do marketing direcionado ao consumidor” (DTC, na sigla em inglês), que, ao conjugar-se com o marketing direcionado aos médicos, cria o que o artigo designa por ‘punchy marketing‘ – marketing incisivo, forte, insistente.

O DTC quadruplicou entre 1997 e 2016, passando o investimento em anúncios – sobretudo comerciais televisivos e publicidade em revistas – de 2,1 mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros) em 1997 para 9,6 mil milhões (8,4 mil milhões de euros) em 2016.

Desses 9,6 mil milhões de dólares, cerca de 6 mil milhões (5,2 mil milhões de euros) destinaram-se ao marketing para prescrição de medicamentos, indica a análise.

De acordo com as especialistas em política de saúde Selena Ortiz, da Pennsylvania State University, e Meredith Rosenthal, da Harvard University, o ‘boom’ nos anúncios DTC “aumenta a necessidade de os clínicos ajudarem os pacientes a conhecer os produtos, as necessidades médicas, os custos e as alternativas não médicas”.

Num editorial que acompanha a análise acima referida, as investigadores observam que essa “crescente dependência de médicos” pode estar “repleta de armadilhas”, visto que, tal como acontece com os consumidores, esses profissionais de saúde podem ser “influenciados e enganados” pelo marketing das empresas farmacêuticas.

Devido a isso, os profissionais “podem precisar de mais educação ou apoio, para servir de árbitro quanto ao marketing enganoso”, frisaram as especialistas, acrescentando que “a confiança nos médicos e nas instituições de saúde pode estar em risco” se o mesmo “continuar a aumentar sem controlo”.

“Converse com o seu médico”: sugestão inocente?

“Converse com seu médico”. Segundo o artigo do Ars Technica, é comum ouvir essa frase no final de anúncios sobre medicamentos ou campanhas de consciencialização sobre doenças. A que parece, à primeira vista, uma sugestão responsável, “pode não ser tão inocente”, visto que a farmacêutica, provavelmente, “chegou ao seu médico primeiro”.

Lisa Schwartz e Steven Woloshin, os autores da análise, destacaram uma prática particularmente preocupante na frase em questão.

Esse discurso, explicam, “incentiva os consumidores a localizar os prescritores [médicos], uma abordagem que levanta questões éticas”, originando dúvidas sobre as intenções dos médicos e se estes “servem os pacientes ou as empresas”.

Mesmo “sem laços claros entre médicos e empresas”, as campanhas de marketing e consciencialização direcionadas para o consumidor “têm uma influência óbvia sobre os pacientes e as práticas de prescrição“, referem os especialistas.

Os autores sublinham que as campanhas de marketing combinadas (que incidem sobre os médicos e sobre os consumidores) são “ainda mais poderosas”, sendo a “devastadora epidemia de opiáceos que assola o país” um bom exemplo. Entre 2000 e 2015, as prescrições de opiáceos e as mortes por ‘overdose’ quadruplicaram. As estimativas apontam para 46 mortes por dia devido ao consumo excessivo dessas substâncias.

Os especialistas analisaram igualmente a atividade regulatória da Food and Drug Administration (FDA), da Federal Trade Commission e dos procuradores gerais dos diferentes estados.

O artigo mostra que o Office of Prescription Drug Promotion da FDA, responsável pela regulamentação do material promocional para os consumidores e para os profissionais de saúde, viu uma a sua atividade regulatória a diminuir ao longo do tempo.

Embora as submissões de material promocional tenham aumentado de 34.182 em 1997 para 97.252 em 2016, as cartas sobre violações ou incorreções nessa área caíram de 156 para 11, nos respectivos anos.

Esta descoberta, concluem os autores da análise, sugere “a possibilidade de uma menor supervisão“, possivelmente porque os revisores da FDA podem estar “sobrecarregados de trabalho devido ao aumento maciço dos pedidos de anúncios promocionais”.

Apesar do aumento do marketing das empresas farmacêuticas em 20 anos, a supervisão regulatória “continua limitada“, enfatizam Lisa Schwartz e Steven Woloshin.

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