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Crónica: a história dos bifes à lapadas e a Santa Eufémia

Crónica de Paulo Ramalheira Teixeira. Os textos são de total responsabilidade de seus autores.

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Assim, hoje vou ao baú das histórias da família para contar a história de um homem chamado José Teixeira, que nasceu no lugar da Lixa, junto à praia do Castelo, na freguesia de Fornos, em Castelo de Paiva e de Maria Rodrigues Moreira que nasceu, no lugar dos Carris, na então freguesia de Sobrado, do mesmo concelho.

\José até aos 21 anos viveu no lugar onde nasceu e trabalhava na praia do Castelo, descarregando aquilo que os barcos rabelos transportavam. Dali saíam produtos para a sede do concelho de Castelo de Paiva e outros, em carros de bois também saíam para o concelho vizinho de Arouca. Eram 4 dias o tempo que demoravam a chegar aquele concelho.
Ao completar 22 anos José casou com Maria Rodrigues e abriram um estabelecimento de restauração e hotelaria em Castelo de Paiva, a chamada PENSÃO LAPADAS.

O restaurante funcionava na parte de baixo e os quartos na parte de cima. No exterior no Verão também serviam refeições debaixo da ramada.

O nome LAPADAS vem de um dia em plena praia do Castelo, o José ter sido incomodado por um Amigo e deu-lhe uma estalada e ele desmaiou. José era um homem que na sua juventude tinha 2 metros e 4 centímetros, uma altura pouco comum à época. E assim o José passou a ser chamado “O LAPADAS”.

À época convém recordar os bifes que se serviam eram muito grandes, e na Pensão Lapadas cada bife pesava um quilo. Os bifes à Lapadas passaram assim a ser designados pois eram também eles proporcionais à altura do dono da Pensão. Os bifes eram criteriosamente escolhidos pela sua esposa nos talhos da região e começavam a ser fritos numa sertão com vinagre tinto. As cebolas que os viria acompanhar eram fritas noutra sertã. Quando estavam meios fritos, os bifes passavam para uma travessa de barro e as cebolas acabavam por ser fritas na sertã dos bifes. As batatas fritas de palito grosso eram fritas noutra sertã. Tudo isto com um vinagre tinto que estava num pipo em casco de carvalho, que recebia os restos do vinho tinto que diariamente acompanhava este precioso menu.

Do casamento de José e de Maria nasceram dos filhos o meu avô Ascendino e a minha tia Juraci. Quando nasci atingir o 5º ano do liceu, hoje o 9º ano, era muito bom. E a minha tia Juraci quando eu concluí o 9º ano ofereceu-me um Bife à Lapadas, pesava o bife 450 gramas, mesmo assim era um senhor bife. Que delícia. Foi uma tarde inteira a comer aquele bife. A minha tia Juraci foi até à sua morte a guardiã da receita dos BIFES À LAPADAS.

No final do Século XIX a Pensão Lapadas já tinha uma tenda com os seus bifes na Romaria da Santa Eufémia, no lugar de Touriz, São Pedro do Paraíso, um dos lugares de culto referenciado pela Igreja Católica e dos maiores do Norte do Distrito de Aveiro, realizando a 13, 14 e 15 de Setembro de cada ano.

Com a introdução deste magnifico menu naquela festa profano-religiosa aumentou ainda mais o número de portugueses que ali ocorria. Nessa altura a Pensão fechava na Vila de Sobrado, situada que estava na Rua Júlio Strecht.

Os bois eram pendurados ao alto nas árvores e a sua carne cortada para chegarem aos preciosos bifes.

Muitos são os blogues (exemplo Melres Fórum), os sites turísticos (Portugal Centro e Mais Portugal) e artigos de opinião que descrevem aquilo que eram os BIFES À LAPADAS.

Refira-se a propósito que já a Câmara Municipal de Castelo de Paiva no seu site em 1996 fazia referência a estes bifes, conforme documento anexo.
Mas existem dois que trago aqui um deles publicado no Jornal de notícias de 23 de Setembro de 1973 e um outro publicado na Revista LUX, pelo meu Amigo Manuel Serrão, ambos os autores tiveram oportunidade de provar os famosos bifes, um na Santa Eufémia e o segundo em minha casa feitas pela minha Tia Juraci.

O primeiro atribuiu o título ao artigo “VONTADE DE SER CÃO”, pois segundo ele os pregos em pão e no prato que apareciam naquela época na cidade do Porto, tinham menos carne que as aparas dos Bifes à Lapadas que comia na Santa Eufémia, e que um cão debaixo das mesas do “Lapadas” consolava-se.

A 17 de Abril de 1945, em plena Segunda Guerra mundial a minha bisavó Maria, já viúva, escreve ao meu avô (ver carta em anexo), seu filho, que já vivia no Porto, que a vida estava difícil, Portugal atravessava uma crise, que já tinha despedido uma funcionária e que se calhar iria fechar a Pensão.
Quando, mais tarde, isso aconteceu, abria na Vila de Sobrado a «Pensão Quintela», da Miquinhas Quintela que procurou atrair e bem os clientes da Pensão Lapadas, facto que conseguiu pois passou a ser ela a fazer de forma parecida os preciosos bifes.

Hoje, muitos, principalmente as novas gerações chamam Bifes à Santa Eufémia, felizmente existe muita gente viva que ainda fala nos BIFES À LAPADAS e algumas entidades externas a Castelo de Paiva ligadas ao turismo ainda mencionam este prato como um dos mais característicos deste Concelho.

José Teixeira

Deixo aqui o meu testemunho, que me foi deixado pelo meu avô paterno, pelo meu pai, pela minha tia Juraci e pela Miquinhas Quintela que tão bem conheci e onde comi-a bifes à Lapadas quando me apetecia.
Hoje ainda à quem mantenha viva este menu e os actuais proprietários da Pensão Quintela também os fazem muito bem. Recentemente no Restaurante Pinhal também os comi muito bem confeccionados.
Temos de manter as nossas tradições e heranças culturais bem vivas, para que as novas gerações possam voltar acreditar no potencial turístico das suas terras.

Paulo Teixeira – Foto Facebook

Paulo Ramalheira Teixeira 

Bisneto do Fundador da Pensão e dos Bifes à Lapadas


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