José Rocha, presidente do PSD de Castelo de Paiva e vereador

O incêndio de grandes proporções que destruiu fábricas e empresas em Castelo de Paiva no dia 13 de julho não deixou apenas centenas de trabalhadores e gestores preocupados com o futuro. A chamas acenderam também uma discussão política na região. A oposição ao atual executivo municipal cobra soluções e sublinha que a construção de uma nova Zona Industrial no concelho é a decisão mais acertada.

A nossa reportagem conversou com José Rocha, vereador do PSD de Castelo de Paiva e vereador. Este responsável ressaltou os prejuízos materiais deixados pelo incêndio, defendeu uma maior atuação política por parte do atual autarca de Castelo de Paiva e apontou o que, na sua opinião, seria a forma correta de reerguer as empresas afetadas, auxiliar os trabalhadores que tiveram os seus postos de trabalho comprometidos e desenvolver o município paivense.

Que consequências o incêndio em Castelo de Paiva provocou?

As consequências são de uma magnitude muito grande. Não foi apenas um conjunto industrial que ardeu, foi o pulmão industrial em Castelo de Paiva que ficou destruído. Neste Centro de Apoio à Criação de Empresas (CACE), que foi construído após o encerramento da “Clarks”, em 2003, um rude golpe para a economia paivense à época, nasceram empresas que, na altura, eram pequenas e agora são das maiores de Castelo de Paiva, empregando cerca de 400 funcionários. Perdemos algo muito importante para Castelo de Paiva que importa reconstruir rapidamente. Castelo de Paiva precisa da solidariedade nacional, do Governo, para voltar o mais rapidamente possível, dentro de no máximo quatro meses, a ter um novo e modernizado CACE, que não só dê uma resposta a estas empresas como a outras que venham a surgir.

Quantas fábricas, ou empresas, foram destruídas?

Esta é uma pergunta importante, assim como é importante referir todas as empresas que o incêndio afetou: BRADCO – FABRICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DE MARROQUINARIA, SA; SALTYPULA UNIPESSOAL LDA; PAIVADOCE – FABRICO E COMÉRCIO DE ARTIGOS DE PASTELARIA LDA; COMPROMISSO ACEITE UNIPESSOAL LDA; NUNO, BARBOSA & SEABRA, LDA; SHUSOUL, LDA; LAUENER EUROPE UNIPESSOAL LDA e a PAIVA.ALTEREGO, S.A. Desde a maior à mais pequena, todas são importantes e é fundamental apoiar e tratar todas com equidade.

Quantos postos de trabalho foram afetados?

Estas oito empresas representam cerca de 400 posto de trabalho diretos, que representam 10% do total do emprego gerado em Castelo de Paiva.

Como esse tipo de evento influencia na economia local?

Estas empresas representam em conjunto um volume de faturação anual na ordem dos 18 milhões de euros, que representa cerca de 9% da riqueza gerada em Castelo de Paiva e 67% do total das exportações do concelho, pelo que os números falam por si. É um grande impacto na nossa economia. Mas, como já referi, não é só este impacto que deve ser tido em conta. Há também o impacto social e indireto. Muitas famílias tinham a sua fonte de rendimento total no CACE e uma grande parte do comércio local depende da capacidade de compra destes colaboradores que agora têm o seu futuro incerto e, naturalmente, isso se refletirá na economia local.

Como avalia que essa questão deve ser tratada?

Na minha opinião, há quatro eixos a seguir:

– A parte social e o apoio aos trabalhadores afetados. O município e o Governo devem garantir, de uma forma ou de outra, que estas pessoas tenham a garantia da continuidade dos seus postos de trabalho e que o seu rendimento não seja afetado. Isto é, garantir a solução de instalação destas fábricas noutros locais que são remunerados a 100%, seja por apoio direto do estado Layoff + Complemento de Formação, seja por um apoio municipal extraordinário, estas pessoas, repito, têm de ver o seu rendimento mantido;

– Reconstruir o CACE rapidamente e ou criar condições rápidas de instalação definitiva. A cada dia que passa, há negócios que são perdidos para sempre. Os clientes destas empresas, por muitos solidários que sejam com a situação, necessitam dos produtos que estas empresas estavam a produzir e se estas empresas por causa deste incêndio não o podem fazer é natural que os seus clientes procurem outros fornecedores. Há, por isso, circuitos comercias em perigo, daí a rapidez com que se executam as soluções é fundamental;

– Olhar para este infortúnio como uma oportunidade de reestruturação. Havendo vontade, tudo se faz. Esta é também uma oportunidade para criar soluções definitivas e não deixando de reconstruir o CACE, deve ser impulsionada a tão necessária e desejada zona Industrial. Atualmente, querendo, pode fazer-se tudo muito rápido e acredito que, havendo vontade política, poderíamos, no espaço de seis meses, ter uma zona industrial onde estas empresas querendo se poderiam instalar de forma definitiva. A solução temporária pode ter custos que não são suportáveis para as empresas;

– O edifício que ardeu é do Estado (IEFP) e como era do Estado não tinha seguro, porque o estado assegura o papel que uma seguradora teria se estivéssemos a falar de um edifício privado. O IEFP é o senhorio e estas empresas pagavam renda. Pelo que cabe ao senhorio (IEFP) repor a situação. Temos várias propostas que apresentamos na reunião de Câmara e no essencial passam pelo seguinte:

– Reconstruir o CACE. Se o IEFP tiver orçamento próprio, que de imediato, proceda à remoção das estruturas ardidas e reconstrução de um novo CACE. Senão, o Estado deve abrir um Aviso específico para o IEFP, com uma linha específica de fundos comunitários para que essas obras sejam feitas;

– Disponibilizar rapidamente terrenos industriais, uma nova Zona Industrial, e ceder a estas empresas terreno a preços simbólico;

– O Governo deve abrir um aviso específico para que estas empresas possam construir as suas próprias instalações, defendendo um regime de excecionalidade e majoração até 75%, atendendo à nossa localização geográfica, vulnerabilidade, dificuldade de captação de investimento. Sendo que, destes 75%, conforme as regras dos fundos, 50% seria a fundo perdido e os outros 50% sob a forma de empréstimo sem juros a pagar em oito anos com carência de dois anos;

– A Câmara Municipal deve ajudar na concretização dos projetos de arquitetura e efetuar a coordenação do processo, isentar as empresas de IMI e IMT;

– Disponibilizar linha de crédito bonificada para que estas empresas possam fazer face a despesas de tesouraria imediata;

– Efetuar Diplomacia Económica de forma a cativar novos investimentos para Castelo de Paiva;

Deve haver investimentos por parte da autarquia local?

Calor que sim. A Autarquia, face ao que aconteceu, deve redirecionar as suas prioridades e fundos disponíveis, ajudando no que estiver ao seu alcance para que a solução não seja apenas temporária, mas, antes, estrutural e definitiva. Como referi, urge a rápida construção de uma Zona Industrial. Se já a tivéssemos, talvez este acidente não teria acontecido, nem estas empresas estavam agora numa situação tão aflitiva sem ter para aonde ir. Deve, por isso, a autarquia repensar uma Zona Industrial completamente nova, adquirir terrenos, e a estas empresas em particular, e cedê-los a preços simbólicos.

Como um dos líderes políticos da região, que forma considera mais acertada para tratar as consequências do incêndio? Deve-se reestruturar as fábricas para que não haja perda de postos de trabalho?

É como já referi, é preciso, acima de tudo, ser rápido na ação, pois cada dia que passa são circuitos comerciais e oportunidades que se perdem. A solução deve ser executada com cabeça, tronco e membros e pensar na sustentabilidade das empresas não só no imediato, mas também no médio e longo prazo. Uma solução temporária que resolva o dia de hoje pode não ser a mais indicada em termos futuros e da sustentabilidade destas próprias empresas. É preciso pensar e saber o que é que é uma situação temporária. Por quanto tempo? Quanto tempo demora a executar a instalação temporária? Quanto vai custar a cada empresa esta instalação temporária? E, em contraponto, ver os custos e os tempos de uma solução estruturada e definitiva, quer seja no próprio CACE, quer seja numa nova Zona Industrial. Se a diferença de execução entre o temporário for de cerca de quatro meses, não será mais benéfico para todos avançar para algo estruturado e definitivo? Não seria melhor o estado apoiar estas empresas e os seus trabalhadores por mais quatro meses e ter maiores garantias da sustentabilidade no futuro destas empresas?

Politicamente, o que deve ser feito?

Esta vai ser sempre de facto uma solução política entre Estado (Governo) e município. Em que o município tem de exigir, reivindicar, protestar, encontrar e propor soluções e ao Estado, na sua maioria, executá-las. E, sinceramente, e tendo em conta o que temos visto, tenho muitas dúvidas quanto à capacidade de reivindicação e protesto por parte do município e do seu presidente Gonçalo Rocha. Basta olhar para os adjetivos que tem usado “alertamos o Governo”, “sensibilizamos o Governo”, nem parece o Gonçalo Rocha dos tempos em que o PSD era Governo e Passos Coelho, primeiro-ministro, que, em vez de alertar, exigia e, em vez de sensibilizar, protestava e fazia marchas lentas e manifestações públicas. Gonçalo Rocha tem o seu futuro político refém do Governo e não me parece que vá fazer muito alarido. Que eu tenha conhecimento, a CIM Tâmega e Sousa, de que o presidente da Câmara Gonçalo Rocha é também presidente, não teve qualquer posição ou fez o que quer que fosse e também aqui é preciso reivindicar e pensar fora da caixa. Todas as ajudas são precisas, assim como é preciso também exigir as sucessivas promessas não cumpridas, desde a ligação ao IC35, ligação à A32 e tudo o que foi prometido aquando dos incêndios de outubro de 2017, não temos visto nada ou quase nada. Mas, como todos sabem, estou disponível para ser novamente o candidato pelo PSD nas próximas eleições autárquicas e, nessa qualidade, mas também na de vereador da oposição, tudo farei para ajudar o meu povo a ultrapassar mais este desafio e, se os outros se calarem, falaremos nós.

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