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As palavras que estão a revoltar o norte de Portugal

Redação
Last updated: 14 Abril, 2020 9:51
Redação
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A TVI passou em rodapé de notícia uma descrição das causas pelas quais o norte do país estava a ser mais afetado pela covid-19.

A TVI foi muito pouco feliz nessa escolha. Referia portanto o canal televisivo que as pessoas do norte eram menos educadas, mais pobres, mais envelhecidas e estavam concentradas em lares. O uso e escolha das palavras foi infeliz e as pessoas nortenhas não perdoaram.

Gerou-se uma onda de indignação nas redes sociais. Pessoas comuns, políticos, artistas, todos mostraram o seu desagrado para com a TVI.

O presidente da maior cidade a norte, o portuense Rui Moreira, decidiu esclarecer o canal televisivo.

Ficam aqui as suas palavras.

“Do “Norte” com educação
———————————

No dia 7 de Abril, a BBC perguntava num interessante e bem sustentado artigo, por que razão pessoas inteligentes acreditam em mitos sobre o Coronavirus. A pergunta poderia ser endereçada à sua congénere TVI, onde pessoas supostamente cultas, a ponto de lhes ser conferida a possibilidade de fazerem reportagem, foram ontem capazes de inversa conclusão.

Numa peça emitida no Jornal das 8, a TVI ouviu especialistas que explicaram a disparidade de incidência da pandemia a Norte e a Sul. Invocaram o facto da infeção ter começado a Norte, devido à ligações dos empresários a Itália e à Espanha, a concentração demográfica maior a Norte e uma economia muito concentrada em indústrias, que não podem trabalhar em teletrabalho. Ou seja, a economia do Norte, assente na indústria, era e é mais vulnerável.

Porém, a jornalista e o oráculo da peça concluíam mais além, e atribuíram a maior incidência da doença ao facto da população do Norte ser mais pobre… e “menos educada”. A peça da TVI conclui portanto, sem base científica, que os nortenhos (ilustrados com uma bonita imagem do Porto) são menos educados e mais pobres e que é por isso que têm mais Covid19.

A TVI poderia ter concluído sem base científica, mas com alguma lógica empírica. Contudo, nem uma coisa nem outra. Partir do princípio que a “falta de educação” e a “pobreza” provocam Covid19 é quase tão absurdo como imaginar que uma boa francesinha a cura, ou que beber água morna a previne. Aliás, é até um pouco mais absurdo, porquanto a distribuição geográfica dos casos existentes em Portugal levariam então a concluir que a população de Lisboa seria bastante (mas mesmo muito) menos educada e pobre que a da Amadora, Seixal, Almada, Loures ou que a de qualquer cidade do Alentejo, já que Lisboa apresenta casos positivos de Covid19 muito acima destas localidades que a rodeiam. Por isso, ou a TVI encontra uma outra explicação para a doença, que não a falta de educação, ou estará a passar um atestado pouco simpático e injusto aos lisboetas.

A conclusão epidemiológica dos jornalistas da TVI, a ser coerente, permitir-nos-ia ainda concluir que os habitantes de Castelo Branco – onde não existe qualquer caso – são infinitamente mais bem-educados do que todos os lisboetas e milaneses.

E é bom recordar que, até ontem, Lisboa sempre foi o município português com maior número de casos de Covid19, se excluirmos o dia em que a DGS se enganou a somar e, com base no erro, quis estabelecer um cerco ao Porto.

O “Norte”, esse ponto cardeal que a TVI confunde com o Porto e vice-versa, e que imagina Viana do Castelo como uma freguesia da cidade Invicta e Braga como a sua periferia, não está provado que tenha gente mais mal-educada ou mais bem-educada do que Lisboa, da mesma forma que não se provou ainda que Lisboa tenha mais ou menos estúpidos que a Amadora, como na mesma lógica da TVI, seria apropriado dizer-se.

“De estudantes a políticos, muitas pessoas inteligentes caíram em mentiras perigosas espalhadas sobre o novo coronavírus. Porquê? E como você pode se proteger da desinformação?”. Este é o “lead” da peça da BBC sobre os mitos, as mentiras e as verdades do Covid19.
“Na pior das hipóteses, as próprias ideias erradas sobre a doença são prejudiciais – um relatório recente de uma província do Irão descobriu que mais pessoas morreram por consumir álcool industrial, com base em uma falsa alegação de que poderia protegê-lo do Covid-19, do que do próprio vírus. Mas mesmo ideias aparentemente inócuas podem atrair qualquer um para uma falsa sensação de segurança, desencorajando-o a aderir às diretrizes do governo e desgastando a confiança nas autoridades e organizações de saúde”, escreve ainda no artigo aquele órgão de comunicação britânico.

O artigo inglês termina com conselhos de comunicação acerca das campanhas de sensibilização, lembrando que até os mais inteligentes e instruídos acreditam em mentiras que podem prejudicar a luta contra a doença e aconselha todos a terem uma comunicação simples, direta e baseada em factos e não em mitos.

Assim se pede à TVI, para que contribua nesta campanha de informação correta, rigorosa e clara e que não leve à criação de estigmas e mitos que, no limite, prejudicam o combate à doença. E não foi isso que ontem fez a TVI, ao desinformar.

No mesmo dia em que a cidade do Porto viu inaugurado o seu hospital de campanha, a TVI mostrou o hospital de campanha fechado… em Lisboa. E atribuiu à “falta de educação” a propagação da doença “a Norte”. Talvez amanhã nos explique o mesmo fenómeno em Itália, onde também no Norte e na sua região mais industrial e, por ventura, mais instruída, a Covid19 explodiu para a Europa.

Tudo isto tem, é claro, um nome. Chama-se “portofobia”. Um sentimento arreigado em pessoas que acham que “este país” seria melhor sem “o Norte”. Pois bem, nós somos portugueses. Nem temos de invocar que daqui houve nome Portugal. Basta dizer que quem não está bem que se mude, e nós estamos bem em Portugal.”

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