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Novo implante cerebral transforma pensamentos em fala

(dr) University of California, San Francisco

Gopala Anumanchipalli, neurologista da U.C.S.F., com uma matriz de elétrodos semelhante à usado no estudo

Uma equipa de cientistas da Universidade da Califórnia, em São Francisco, nos Estados Unidos, desenvolveu um implante cerebral capaz de ler a mente das pessoas e transformar os seus pensamentos em fala.

A mais recente descoberta pode ajudar pessoas com doenças que impactam a sua capacidade de falar, como lesões cerebrais, cancro de garganta, alguns tipos de derrame e doenças neurodegenerativas como o Parkinson ou a esclerose múltipla. O artigo científico foi recentemente publicado na revista Nature.

De acordo com os cientistas, esta tecnologia funciona em dois estágios. Primeiro, implantam um elétrodo no no cérebro do paciente para captar os sinais  elétricos que controlam os lábios, a língua, a laringe e a mandíbula. Em seguida, os cientistas usam um tipo de computação poderoso para simular os diferentes sons produzidos através dos movimentos da boca e da garganta. Como resultado, surge uma fala sintetizada de um “trato vocal virtual”.

Os cientistas realizaram esta experiência em cinco pacientes que estavam no hospital a ser avaliados para uma possível cirurgia de epilepsia. Os participantes foram orientados a não realizar movimentos específicos com a boca, tendo apenas de ler algumas frases. O objetivo era traduzir atos de fala naturais em movimentos.

O resultado não é perfeito. Os ouvintes foram capazes de discernir o que estava a ser falado.

Estudos anteriores tinham “vasculhado” o cérebro em busca de padrões de sinais elétricos que codificam cada palavra que pronunciamos, mas sem sucesso. Ao concentrarem-se no formato da boca e nos sons que esse formato produz, esta equipa de cientistas alcançou um resultado eficaz inédito.

Segundo Edward Chang, um dos cientistas responsáveis, “demonstramos, pela primeira vez, que podemos gerar frases orais inteiras baseadas na atividade cerebral de um indivíduo. Esta é uma estimulante prova de que, com a tecnologia que já está ao nosso alcance, devemos ser capazes de construir um dispositivo que seja clinicamente viável em pacientes com perda de fala”.

No entanto, é preciso ressalvar que a tecnologia depende do funcionamento correto das partes do cérebro que controlam os lábios, a língua, a laringe e a mandíbula. Por esse motivo, pacientes com alguns tipos de derrame, por exemplo, não poderiam beneficiar desta nova tecnologia, uma vez que não conseguem comunicar.

Há também uma perspetiva mais distante: ajudar pessoas que nunca falaram, incluindo algumas crianças com paralisia cerebral. Estes pacientes poderiam aprender a comunicar oralmente com este dispositivo.

Será que esta tecnologia poderia ser usada de forma nefasta para ler pensamentos particulares? Para já, é muito difícil.  “Tentamos verificar se é realmente possível descodificar apenas pensamentos. E é, de facto, um problema muito desafiante. Esta é apenas uma das razões pelas quais nos concentramos no que as pessoas estão realmente a tentar dizer”, esclareceu Chang.

Contudo, alguns cientistas argumentam que há um debate ético sobre as tecnologias de interface cérebro-máquina que leem a mente. Apesar de este novo estudo ser promissor e oferecer esperanças a pacientes com problemas de fala, ainda está em estágios iniciais e, portanto, distante de aplicações clínicas.