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O autismo poderá estar ligado a alterações das bactérias intestinais, dizem cientistas

Investigadores chineses descobriram uma potencial ligação entre as deficiências do microbioma intestinal e o transtorno do espectro do autismo. O novo estudo encontrou, no entanto, dificuldade ao traduzir a descoberta para terapias clínicas.

Um novo estudo, publicado na revista científica Science Advances, descobriu uma potencial ligação entre o autismo e deficiências do microbioma intestinal. A pesquisa revela um mecanismo através do qual bactérias intestinais alteradas podem levar à desintoxicação microbiana anormal e, consequentemente, à disfunção mitocondrial.

A conexão entre as bactérias intestinais e o transtorno do espectro autista (TEA) é uma das áreas mais intrigantes da pesquisa do microbioma, visto que problemas gastrointestinais são comuns em crianças autistas. Vários estudos recentes revelaram que os sintomas comportamentais e psicológicos do autismo em crianças podem ser melhorados com transplantes fecais de indivíduos saudáveis.

De acordo com o New Atlas, o maior obstáculo enfrentado pelos investigadores talvez seja, no entanto, a dificuldade em traduzir as suas descobertas para terapias clínicas devido à grande diversidade de populações de bactérias intestinais de cada indivíduo – enquanto algumas espécies bacterianas podem ser consideradas “boas” e outras consideradas “más”, não existe uma solução única para a terapêutica do microbioma.

Uma equipa de cientistas da China desenvolveu uma nova estratégia analítica chamada de quasi-paired cohort, na qual foram avaliadas 79 crianças com idades e géneros pareados – metade com autismo e outra metade que serviu como controlo neurotípico.

Esse método permitiu aos cientistas identificar não só as poucas diferenças na diversidade bacteriana entre os dois grupos, como também as principais diferenças metabólicas.

Durante a investigação foram identificadas cinco deficiências específicas da via metabólica, associadas a processos de desintoxicação desencadeados por certas enzimas produzidas por bactérias intestinais. Os autores levantaram então a hipótese de que essas deficiências de desintoxicação do microbioma influenciam a patogénese do autismo.

“Uma das principais manifestações patológicas do TEA é a disfunção das mitocôndrias“, disseram os investigadores. “Quando a desintoxicação microbiana intestinal é severamente prejudicada, mais tóxicos de origem externa e interna podem entrar na circulação e danificar as mitocôndrias de vários tecidos. Assim, a nossa descoberta de desintoxicação microbiana prejudicada ajuda a explicar o porquê de crianças com TEA serem tão vulneráveis ​​às toxinas ambientais e sugere que o prejuízo na desintoxicação microbiana pode estar envolvido na patogénese do TEA”, explicaram.

Embora o estudo ofereça uma investigação rigorosa mostrando que os indivíduos com autismo podem apresentar uma deficiência nas vias de desintoxicação do microbioma, qualquer ligação causal com o início ou gravidade do TEA é especulação neste estágio.

Por esse motivo, são necessárias mais pesquisas para confirmar a conexão e investigar se a modulação do microbioma pode prevenir o desenvolvimento de autismo.

“A desintoxicação microbiana prejudicada está correlacionada com a classificação clínica de TEA e a extensão da disfunção mitocondrial – uma das principais alterações patológicas do autismo – o que sugere que a desintoxicação microbiana prejudicada está profundamente envolvida na patogénese de TEA”, concluem os investigadores.