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Portugal ficou em último na Eurovisão (mas há 12 coisas que pode ganhar)

José Coelho/ Lusa

Cláudia Pascoal interpreta a canção “O Jardim” durante a sua atuação na final do Festival da Canção 2018

Professor de Turismo e investigador sobre o fenómeno da Eurovisão, Jorge Mangorrinha, sintetiza em 12 pontos o que considera ficar depois da organização portuguesa do festival. Uma delas, a prova do valor que pode ter uma canção.

A organização do Festival Eurovisão da Canção pela primeira vez por Portugal vai deixar no país 12 mais valias “de ordem sociocultural e de ordem económica, desde a perceção dos públicos e da população residente aos organizacionais e empresariais”, explica Jorge Mangorrinha.  O investigador defende, como um dos possíveis ganhos, a criação do “Jardim Amar Pelos Dois” em Lisboa.

O jardim simbolizaria, no espaço público, os temas das duas canções portuguesas: “A que trouxe a Eurovisão a Portugal [‘Amar Pelos Dois’] e a que representou Portugal em Lisboa [‘O Jardim’], e celebraria todas as representações portuguesas na Eurovisão através de ‘storytelling’“.

A juntar a esta ideia, destaca, como segundo ponto, o “benefício intangível na melhoria do orgulho público” perante a realização portuguesa de um evento internacional no país, “amplamente promocional, e face à projeção internacional da capacidade de fazer”.

O investigador associa como terceiro ponto, a demonstração de um modelo de organização do evento “mais racional”, onde se conjuga a cultura com outras dimensões do evento, como a urbana, a tecnológica, a convivial e festiva, a política, a ritualística, a mediática e a turística. Mas também reitera, como ponto seguinte, a importância do “papel pedagógico” da programação musical da RTP e o “alargamento cultural dos seus horizontes”.

Mangorrinha lembra, como quinto ponto, que os impactos de um grande megaevento “se prolongam durante muitos anos, como se confirma com o benefício para este evento eurovisivo da realização da Expo’98, há 20 anos, e da construção das infraestruturas e equipamentos, porque a existência do Altice Arena ajudou a reduzir o investimento na organização eurovisiva”.

A consolidação da marca de Lisboa, como “cidade de eventos e não apenas uma cidade com eventos”, é um dos traços distintivos que decorrem do passado recente e que é reforçado com esta realização.

Há ainda o “reforço da diversidade turística do destino e das novas tendências de procura”, potenciando a oferta e os novos visitantes que fizeram estada nestes dias na capital portuguesa e que procuram “dimensões múltiplas de vivência, em alguns momentos relacionadas com a fantasia ou a transcendência”.

Também sustenta que se vê reforçada a promoção do país, através dos “Postais de Portugal” gravados pelas diferentes delegações, tendo em vista “o regresso dos atuais visitantes e da vinda de outros motivados pela transmissão à escala universal”.

Mangorrinha destaca, ainda, um ponto relacionado com a perceção por parte das empresas portuguesas da importância em se associarem a eventos, de forma a ganharem destaque no mercado. E um outro ponto, mais relacionado com os agentes públicos, a importância de “um amplo espaço de debate em torno da natureza e das implicações das políticas culturais e urbanas que se apoiam neste género de realizações”.

A excecionalidade e o mediatismo do evento poderão exercer influência sobre o alargamento da sua especificidade a públicos mais abrangentes, refletindo-se cultural e economicamente, pelo que Jorge Mangorrinha defende, como último ponto, “mas não menos importante no contexto dos festivais”, que “uma canção deve ser sempre vista como valor estratégico integrado”.

Jorge Mangorrinha é doutorado e pós-doutorado nas áreas de Urbanismo e Turismo e é autor, entre outros, de um estudo sobre como Lisboa se deveria preparar para receber o festival.

Fonte: ZAP