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Será que vivemos numa simulação? As probabilidades são de 50/50

A hipótese da simulação é, há muito, discutida em todo o mundo e deixa no ar a dúvida: será que o nosso universo é real ou um simulacro? A resposta ainda não existe, mas um novo estudo veio mostrar que as probabilidades são de 50/50.

Não é todos os dias que um comediante dá arrepios a um astrofísico enquanto discutem as leis da física. Mas Chuck Nice conseguiu fazê-lo num episódio recente do podcast StarTalk – programa sobre o espaço e ciência, apresentado pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson.

Tyson tinha acabado de explicar o argumento da simulação – a ideia de que poderíamos ser seres virtuais a viver numa simulação de computador -, quando Nice opinou: “Talvez seja por isso que não podemos viajar mais rápido do que a velocidade da luz, porque se pudéssemos, seríamos capazes de chegar a outra galáxia.”

E Tyson, extasiado e surpreendido, interrompeu: “Antes que eles possam programá-lo.” “Então o programador colocou esse limite”, disse o astrofísico, que participou em 2016 numa discussão pública sobre o tema no Museu de História Natural de Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Desde que Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, publicou um artigo sobre o argumento da simulação em 2003, filósofos, físicos, tecnólogos e, até, comediantes, têm lutado com a ideia de a nossa realidade ser um simulacro. Há quem tenha tentado identificar maneiras através das quais possamos discernir se somos seres simulados ou mesmo calcular a probabilidade de sermos entidades virtuais.

Agora, um novo estudo publicado em agosto mostra que as probabilidades de estarmos a viver numa realidade simulada ou numa realidade base – uma existência que não é simulada – são praticamente as mesmas.

Além disso, a análise de David Kipping demonstra que, se os humanos desenvolvessem a capacidade de simular seres conscientes, então as probabilidades seriam indiscutivelmente favoráveis ​​à possibilidade de também sermos habitantes virtuais dentro do computador de outras pessoas.

De acordo com a Scientific American, o argumento da simulação de Bostrom baseia-se num trilema, no qual pelo menos uma afirmação deve ser verdadeira: primeiro, os humanos que alcançam um estágio de vida pós-humana é próximo de zero; em segundo lugar, os humanos interessados em executar simulações ancestrais é próximo de zero; e por último, a probabilidade de estarmos todos a viver numa simulação é próxima de um.

Mas antes de Bostrom, já o filme Matrix (1999) tinha feito a sua parte em popularizar a noção de realidades simuladas e, em 2016, Elon Musk reforçou ainda mais a possibilidade de a nossa realidade ser uma simulação.

“Musk está certo, se assumirmos que as proposições um e dois do trilema são falsas”, disse o astrónomo David Kipping, da Universidade de Colúmbia.

Para entender melhor o argumento da simulação de Bostrom, Kipping decidiu recorrer ao raciocínio bayesiano, que permite calcular a probabilidade de algo acontecer (chamada de probabilidade posterior), fazendo suposições sobre aquilo que está a ser analisado (probabilidade anterior).

Kipping transformou o trilema num dilema, reunindo as proposições um e dois numa única afirmação, visto que em nenhum dos casos há a possibilidade de estarmos a viver numa simulação. Assim, o dilema opõe uma hipótese física (não haver simulações) à hipótese da simulação (haver uma realidade básica e simulações também).

“Atribui-se uma probabilidade anterior a cada um desses modelos”, diz Kipping. “Apenas assumimos o princípio da indiferença, que é a suposição padrão quando não se tem dados nem tendências para qualquer um dos lados.”

O estágio de análise seguinte exigiu pensar sobre as chamadas realidades “parentais” – aquelas que podem gerar outras realidades – e realidades “nulíparas” – aquelas que não podem simular realidades descendentes.

Se a hipótese física fosse verdadeira, então a probabilidade de estarmos a viver num universo nulíparo seria fácil de calcular: 100 por cento.

E Kipping mostrou que, mesmo na hipótese de simulação, a maioria das realidades simuladas seriam nulíparas. Isto porque à medida que as simulações geram mais simulações, os recursos de computação disponíveis para cada geração subsequente diminuem ao ponto em que a grande maioria das realidades não teria o poder de computação necessário para simular realidades descendentes com seres conscientes.

Se conectarmos tudo isto numa fórmula bayesiana, obtemos a resposta: a probabilidade posterior de estarmos a viver numa realidade básica é quase a mesma que a probabilidade posterior de sermos uma simulação – sendo que as probabilidades a favor da realidade básica são um bocadinho maiores.

Mas, se os humanos criassem uma simulação com seres conscientes dentro dela, estas probabilidades mudariam dramaticamente porque a probabilidade que se atribuiu anteriormente à hipótese física seria alterada.

“Pode-se simplesmente excluir essa hipótese. Por isso, fica-se apenas com a hipótese da simulação”, disse Kipping. “No dia em que inventarmos essa tecnologia, as probabilidades serão alteradas para algo melhor do que 50/50; tornando-se quase certo que não somos reais, de acordo com esses cálculos. Seria uma celebração muito estranha para a nossa genialidade”, rematou.