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Andamos a fazer menos sexo (e parte da culpa é das séries de televisão)

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Estudos conduzidos em diversos países apontam que as pessoas andam a fazer menos sexo. A nova geração de jovens, sobretudo homens, parece andar mais interessada nos vídeo-jogos e em séries de televisão do que em ter relações sexuais.

É, definitivamente, uma mudança de paradigma. Nas mentes dos jovens de outros tempos, o sexo era o tema dominante, mas, actualmente, com tantas possibilidades no horizonte, parece ter-se tornado quase irrelevante.

Esta é a conclusão de muitas pesquisas efectuadas em vários países. Em Portugal, o assunto não tem sido muito estudado, mas um inquérito realizado pelo Expresso, em 2012, em torno da vida sexual dos portugueses, já concluía que se praticava pouco sexo em geral, não apenas entre os jovens, apesar de se falar muito do assunto.

Numa pesquisa online efectuada pela organização do Eros Porto – o Salão Erótico do Porto – neste ano, metade dos inquiridos responderam que fazem sexo duas a três vezes por semana, 17,6% apenas uma vez e 8% não fazem há, pelo menos, um ano.

Os números podem ser olhados com desconfiança, considerando que estamos perante um público interessado no Eros Porto e que, por isso, poderá ter hábitos sexuais mais activos do que a generalidade da população. Certo é que destoam dos dados que nos chegam de outros países.

A mais recente pesquisa do National Opinion Research Center, o centro de sondagens de opinião da Universidade de Chicago (EUA) que, desde 1972, entrevista pessoalmente milhares de pessoas sobre assuntos variados, nomeadamente o comportamento, aponta que 23% dos inquiridos não fizeram sexo no último ano – é quase o dobro do número registado há 10 anos, em 2008, como refere a BBC que divulga o estudo.

Os investigadores ficaram surpreendidos com a proporção “muito maior do que o esperado” de homens com menos de 30 anos que disseram estar sem fazer sexo há pelo menos 12 meses – 28% dos participantes com idades entre os 18 e os 30 anos, o triplo do número registado em 2008.

As mulheres mais jovens também estão a fazer menos sexo, mas o aumento nesse segmento foi de apenas 8% na última década.

A pesquisa também identificou que mais de metade dos adultos norte-americanos, com idade entre 18 e 34 anos (51%), não está numa relação longa com um parceiro. Em 2004, esse número era de 33%.

Mas no Reino Unido, são os casais já formados que se destacam pela falta de apetite sexual. Uma publicação académica do British Medical Journal usou dados de uma pesquisa com 45 mil pessoas que é feita a cada dez anos, desde 1990, para mapear o comportamento sexual dos britânicos. Os resultados revelam que quase um terço dos inquiridos, homens e mulheres, não fizeram sexo nos últimos 30 dias, segundo destaca a BBC.

Ainda de acordo com o artigo académico, menos de metade dos entrevistados, com idade entre 16 e 44 anos, declararam fazer sexo pelo menos uma vez por semana. A situação piora entre os casais com idades acima dos 25 anos e com casais que são casados ou moram juntos.

O investigador que liderou este estudo britânico, Kaye Wellings, diz ao The Independent que um dos “vários factores” que podem “explicar este declínio” é “o ritmo da vida moderna”. Ele destaca que os mais afectados estão “na meia idade”, sendo pessoas que começaram “as suas famílias em idades mais avançadas do que as gerações anteriores” e que andam, muitas vezes, ocupados a fazer “malabarismo com creches, trabalho e responsabilidades com pais que estão a ficar mais velhos”.

Por outro lado, um estudo sobre sexualidade entre a população sénior que foi realizado na Bélgica, na Dinamarca, na Noruega e em Portugal, aponta dados um pouco diferentes, pelo menos ao que os idosos lusos diz respeito. A pesquisa liderada pelo professor Bente Traen da Universidade de Oslo (Suécia) concluiu que os portugueses com idades entre os 60 e os 75 anos praticam sexo cerca de 2 a 3 vezes por semana, conforme reporta o Jornal de Notícias. A confirmar-se o que os inquiridos garantiram no inquérito, os idosos nacionais revelam uma vida sexual muito mais activa do que belgas, dinamarqueses e noruegueses cuja média de relações sexuais se fica pelas 2 ou 3 vezes por mês.

Porque é que os jovens andam a fazer menos sexo?

Os especialistas acreditam que o facto de os jovens demorarem mais tempo a sair de casa dos pais, dependendo financeiramente da família, tem impacto na sua vida sexual.

De acordo com o Eurostat, os jovens portugueses estão entre os que, dentro da União Europeia, saem de casa dos pais mais tarde, quase aos 29 anos, acima da média comunitária que se situa nos 26 anos. Cerca de 35% dos jovens do sexo masculino entre os 25 e os 34 anos viviam em casa dos pais em 2017, enquanto se verificava o mesmo com 21% dos jovens do sexo feminino.

Por outro lado, o facto de assumirem relações mais duradouras cada vez mais tarde, normalmente depois dos 30 anos, também contribui para a menor regularidade das relações sexuais.

Além disso, a sociedade actual é uma grande consumidora de pornografia online, o que pode estar a ter um efeito negativo nas relações sexuais das pessoas.

O consumo de pornografia pode aumentar o nível de ansiedade e de obsessão com o corpo. Também pode estimular comportamentos negativos dos homens em relação às mulheres, no caso de relacionamentos heterossexuais.

E depois quem passa muito tempo a ver filmes pornográficos sozinho, pode não ter tempo para encontrar um parceiro na vida real.

Há ainda os sites e as aplicações de encontros – em muitos casos, os encontros não passam do mundo virtual.

Hoje em dia, também há “muito mais coisas para fazer às 10 horas da noite do que havia há 20 anos”, constata na BBC a professora de psicologia da Universidade do Estado de San Diego (EUA), Jean Twenge.

A professora acredita que os video-jogos e serviços de streaming como o Netflix podem estar a contribuir para este novo padrão sexual da população. A hora do sexo tem que competir com “vídeos, redes sociais, video-jogos e tudo o mais”, destaca Twenge.

“A vida na era digital é consideravelmente mais complexa do que em eras anteriores, a fronteira entre a esfera privada do lar e o mundo público lá fora está esbatida, e a Internet oferece um espectro assinalável para a diversão”, reforçam os autores do estudo realizado no Reino Unido.

Mas também há muitas pessoas que sofrem de problemas sexuais. Estudos feitos pelo Sex Lab – Laboratório de Investigação em Sexualidade Humana da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto concluíram que 40% dos portugueses, de ambos os sexos, sofrem de algum tipo de mal-estar sexual.

Nos homens, os principais problemas são a ejaculação precoce e a dificuldade de erecção, enquanto nas mulheres são as dificuldades de ter orgasmos, de excitação sexual e de lubrificação.

Mas fazer menos sexo é mau?

Este decréscimo na quantidade de relações sexuais não é, necessariamente, mau. “O que é importante para o bem-estar não é quantas vezes as pessoas fazem sexo, mas se isso é importante para elas”, aponta na BBC a professora Kaye Wellings, especialista em investigações relacionadas com o sexo no Reino Unido.

O importante é a qualidade e não a quantidade“, realça também o conselheiro sexual e terapeuta Peter Saddington na BBC. E de resto, se se apreciar a experiência “é mais provável” que se queira repetir.

Mas quem quer fazer mais sexo, precisa necessariamente de se esforçar, alerta Saddington. “Tem que arranjar tempo para o sexo“, nota o terapeuta, frisando que “nem sempre tem que ser espontâneo” e que “colocar uma data no calendário pode ajudar”.

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