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“Não é calamidade sanitária.” Investigador pede fim das restrições porque Covid-19 mata pouco mais do que a gripe comum

Redação
Last updated: 27 Abril, 2020 20:30
Redação
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Contents
  • O “factor externo” Primavera
  • Restrições podem matar mais a médio e longo prazo
  • “Futebol não traz risco nenhum por si”

André Dias / Facebook

O investigador André Dias, especializado em doenças pulmonares,.

O investigador André Dias, especializado em doenças pulmonares, apela ao Presidente da República que seja levantado o Estado de Emergência, considerando que as restrições por causa da Covid-19 podem ser “mais danosas para o tecido social do que a própria doença”, levando até a um maior número de mortes a médio e longo prazo”.

André Dias é doutorado em modelação de doenças pulmonares pela Universidade de Tromso (Noruega) e trabalhou no Instituto de Estatística Médica e Epidemiologia da Universidade Técnica de Munique (Alemanha), colaborando com o Helmoholtz Zentrum Munique, “uma das mais prestigiadas instituições do mundo na área de investigação em epidemiologia“, como vinca numa carta aberta ao Presidente da República que é publicada pelo Observador.

Nesta carta aberta, o investigador considera que “não se trata de uma calamidade sanitária”, vincando que “as estimativas de alguns dos maiores especialistas são que a taxa de letalidade do vírus é muito inferior ao estimado e logo o risco é, também, muito inferior”. Por isso, pede o levantamento do Estado de Emergência, até porque alega que o “número crescente de evidências científicas sugerem a irrelevância actual das medidas de contenção social”.

“O risco é mais baixo do que a tuberculose”, considera o investigador em entrevista ao Observador, notando que os “testes de anti-corpos que têm sido feitos, nas últimas semanas, relatam um número muito maior dos infectados” do que os dados oficiais. Falamos de um “aumento de 50 a 85 vezes mais”, o que significa que a taxa de mortalidade da Covid-19 é “equivalente a muitas outras doenças” com que convivemos todos os dias.

Os valores são “comparáveis aos da gripe” em termos de mortalidade, embora o coronavírus tenha “efeitos clínicos mais graves”, aponta André Dias.

Quanto ao elevado número de mortes na Europa, nomeadamente em países como Itália e Espanha, o investigador sustenta que não estão acima de outros anos. “Em 2014, a monitorização da mortalidade detectou um excesso de mortes durante o Inverno” na Europa, com “217 mil mortes em excesso sobre aquilo que era considerada a mortalidade expectável”, relata André Dias.

No que concerne à Covid-19, até ao passado sábado, dia 25 de Abril, contabilizavam-se na Europa 110 mil mortes atribuídas ao coronavírus, diz o investigador, notando que “a grandeza da mortalidade em excesso é bastante inferior à que poderia ser atribuída à gripe em 2014”.

Em Portugal, de acordo com o Programa Nacional de Vigilância da Gripe do Instituto Ricardo Jorge, na época 2018/2019 morreram 3331 pessoas, enquanto na época 2017/2018 morreram 3700 pessoas. As mortes por Covid-19 no nosso país situam-se nas 928, conforme os dados até esta segunda-feira, 27 de Abril.

O “factor externo” Primavera

André Dias também refuta a ideia de que as medidas de contenção podem estar a evitar que haja mais mortes, considerando que “a evolução das curvas de infectados e de mortes na Europa segue um padrão muito mais próximo dos surtos de gripe do que um padrão esperado” em função das medidas adoptadas pelos diferentes países.

O investigador acredita que há um “factor externo muito mais forte” do que as medidas de confinamento que pode estar a contribuir para amenizar as curvas – a Primavera. “Os vírus pulmonares são muito sensíveis à luz solar”, analisa, considerando que “a luz solar e os raios ultravioletas são capazes de os destruir”.

Sobre a possibilidade de uma segunda vaga, André Dias diz que “o mais provável é que o vírus regresse no caldeirão dos vírus de gripe, como mais uma estirpe”. Entretanto, deve circular “no hemisfério sul como vírus do Inverno deles”, diz.

Relativamente a essa segunda vaga, o investigador analisa que “o impacto poderá ser maior, poderá haver mais infecções numa percentagem detectável“, como acontece com outros vírus, nota. “Na generalidade, estou convencido que não fará um pico de mortalidade além daquilo que estamos habituados no Inverno”, conclui.

Sobre as medidas do Governo para a reabertura, André Dias critica o facto de se planear abrir as Escolas Secundárias já em Maio, notando que “abrir as creches e as escolas primárias” deveria ser o primeiro passo. Isto porque “as crianças abaixo de 10 anos não têm riscos” e, além disso, “são importantes na criação de imunidade”, considera. “Nas Escolas Secundárias já existe risco”, embora “irrisório”, constata.

Restrições podem matar mais a médio e longo prazo

Na carta aberta ao Presidente da República, André Dias vinca que “não se trata de uma calamidade sanitária”, relevando que “as estimativas de alguns dos maiores especialistas são que a taxa de letalidade do vírus é muito inferior ao estimado e logo o risco é, também, muito inferior”.

O investigador aponta ainda o modelo de previsão feito pelo Imperial College quanto às consequências da pandemia e que ditou a forma como a maioria dos Governos actuou, considerando que contém “erros grosseiros que colocam em causa a sua validade”.

“Temos agora suficientes evidências científicas para afirmar com relativa confiança que as consequências da epidemia são e serão muito inferiores às previsões catastrofistas iniciais. Alguns estudos sugerem mesmo que a taxa de mortalidade da Covid-19 é pouco superior à da gripe comum”, analisa.

“As melhores estimativas de taxa de letalidade colocam-na abaixo dos 0,36%. Não se trata de uma calamidade sanitária”, conclui.

Assim, defende que “as medidas preventivas de contenção já não são necessárias sob um ponto de vista sanitário”, notando que é importante acabar com o confinamento. Até porque há estudos que indicam que “as medidas preventivas serão mais danosas para o tecido social do que a própria doença, podendo mesmo ser associadas a um número superior de óbitos a médio e longo prazo”, considera.

André Dias assume, porém, que para lá dos problemas do vírus em si, temos “um problema psicológico: os cidadãos estão com medo“. “Mesmo que a perigosidade percepcionada do vírus seja ilusória, o medo instalado é real e dificulta a interpretação racional dos dados actuais”, alerta.

Deste modo, o investigador apela ao Presidente da República para que assuma “um discurso que vise desdramatizar a situação, a partir das evidências científicas que agora nos assistem”. Defendendo “o restabelecimento da normalização da vida quotidiana”, André Dias nota que é preciso “agir com cautela”, sublinhando que “o cessar das restrições, do isolamento social, da quarentena” deverá ser “faseado para evitar o descrédito nas instituições governamentais e o aviltamento do medo ou outras emoções negativas entre os cidadãos”.

“Futebol não traz risco nenhum por si”

Já em entrevista ao jornal A Bola, André Dias defende que “o futebol é uma actividade que não traz risco nenhum por si”. “O desporto ao ar livre nunca deveria ter sido restringido e as competições devem voltar, não sei quando”, analisa, considerando que “os desportos dentro de pavilhões, com público, devem ser os últimos a voltar, tal como os espectáculos culturais”. “São espaços confinados, em que pode estar muita gente, e portanto aí podemos estar a fazer infecções”, avisa.

Mas num estádio “o risco é diminuto” porque “é um local aberto”, afiança, considerando que “cancelar o que quer que seja depois de Junho é um erro”

“Estar na rua não tem risco algum e estar na rua, na verdade, reduz o risco“, entende ainda André Dias. “Não estou a dizer ‘vão todos para a rua’, o que digo é que as doenças pulmonares têm como maior inimigo a rua; a rua é a forma mais fácil e eficaz de travar a infecção”, constata.

“As infecções pulmonares não têm capacidade quase nenhuma de infectar no exterior”, defende o investigador. “O vírus replica-se no sistema pulmonar. Ele usa as células do sistema pulmonar. O que importa aqui é que o vírus não está na pele, ou não tem na pele uma forma significativa de contágio, como as secreções, que o tornam perigoso. Ele tem de sair do corpo, tem estar algum tempo no ambiente para infectar outras pessoas. Por isso é que lavar as mãos é muito eficaz. É praticamente a única medida eficaz que temos para a contenção”, alerta André Dias.

SV, ZAP //

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