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Home - Ciência - A Antártida está a ficar mais alta

Ciência

A Antártida está a ficar mais alta

Last updated: 26 Junho, 2018 10:45
Redação
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leungchitak / Flickr

O material rochoso de uma parte da Antártida Ocidental está a subir mais rapidamente do que se pensava e isso acontece porque o manto terrestre é mais fluido do que se julgava. Estas recentes descobertas são, em simultâneo, boas e más notícias para o continente gelado.

Comecemos pelas boas notícias. O facto de o material rochoso estar a subir faz com que sejam formados alicerces que, por sua vez, sustentam as plataformas de gelo. Essas plataformas que restam podem, assim, tornar-se mais estáveis.

Por outro lado, a má notícia é que, nos últimos anos, as medições de satélite podem ter sido distorcidas pelo aumento da Terra, levando os investigadores a subestimar a taxa de desaparecimento do gelo em até 10%.

Uma viagem por baixo do gelo da Antártida Ocidental

A Antártida Ocidental ocupa cerca de 1,8 milhões de quilómetros quadrados do continente. Por baixo do gelo, encontramos o substrato rochoso, o conjunto de formações rochosas sobre as quais se foi acumulando neve que se foi transformando em gelo com o tempo, explica ao Público António Correia, investigador no Instituto de Ciências da Terra, da Universidade de Évora.

Para perceber esta ascensão do substrato rochoso, os cientistas instalaram várias estações de GPS em afloramentos rochosos ao longo da costa do mar de Amundsen, na Antártida Ocidental, e chegaram à conclusão que nessa região o substrato está a subir mais rapidamente do que o que se esperava.

Esta subida é de 41 milímetros por ano. Por comparação, na Islândia ou no Alasca observou-se uma subida de 20 a 30 milímetros. Na Gronelândia, a ascensão é de 30 milímetros por ano.

Mas quem é o verdadeiro culpado desta rápida subida? O manto terrestre, afirmam os cientistas. A elevação do substrato rochoso deve-se ao facto de a viscosidade do manto apresentar valores dez a cem vezes inferiores ao que inicialmente se pensava.

António Correia, que não participou no estudo, explica ainda que a diminuição da viscosidade pode estar a acontecer graças a um maior fluxo de calor no manto da região. Em termos práticos, o que acontece na Antártida é que o manto terrestre é mais fluido do que se julgava, mas a temperatura não explica tudo.

“Sabemos onde é que a Terra é mais quente e mais fria, no entanto a viscosidade do manto não depende apenas da temperatura, mas também do teor da água”, adianta Valentina Barletta, da Universidade Técnica da Dinamarca e autora do estudo.

Assim, “estimar a temperatura do manto numa determinada zona poderia dar uma visão imprecisa de como é rápida esta ascensão, dado que uma área fria com alto teor de água pode ser tão viscosa quanto uma zona quente com menos água”, explicou a investigadora.

Manto terrestre mais fluido do que se pensava

O leito rochoso da Antártida é difícil de se estudar, dado que a maior parte está coberto por grossas camadas de gelo. Aliás, a cobertura de gelo do continente corresponde a cerca de 90% de todo o gelo existente na Terra e contém água suficiente para elevar o nível médio da água do mar em todo o mundo em cerca de 61 centímetros, segundo a NASA.

Ao todo, foram instaladas seis estações de GPS, na esperança de ver a lenta elevação do leito rochoso ao longo do tempo. Mas não foi isso que aconteceu.

Em vez disso, os cientistas viram que a taxa de elevação era cerca de quatro vezes mais rápida do que a esperada. A velocidade – cerca de 41 milímetros por ano – é uma das taxas mais rápidas registadas em áreas glaciares.

Os cientistas sugerem assim que o manto por baixo do gelo da Antártida Ocidental é muito fluido. “A fusão do gelo faz diminuir o peso que o substrato rochoso tem que suportar e, por ajustamento isostático glaciar, tende a ascender”, explica António Correia.

Cientistas mediram a subida do substrato rochoso

Um futuro incerto e uma réstia de esperança

A elevação do leito rochoso é o resultado da perda de gelo ao longo do século passado, e o gelo continua a desaparecer a um ritmo preocupante. O lençol de gelo do oeste da Antártida (WAIS, na sigla em inglês) pode, inclusivamente, colapsar nos próximos 100 anos, causando uma subida do nível da água do mar de quase três metros.

No entanto, os investigadores sugerem que pode haver uma réstia de esperança para o enfraquecimento do WAIS.

O leito rochoso, sustentado por um manto fluido, pode fornecer uma fonte inesperada de apoio para o WAIS. Como? A elevação do leito poderia estabilizar o lençol o suficiente para impedir um colapso completo, mesmo sob fortes pressões.

“Além de nos dar uma nova imagem das dinâmicas da terra na Antártida, os novos resultados impulsionarão modelos mais precisos para a camada de gelo da Antártida Ocidental sobre o que vai acontecer no futuro”, considera a autora Valentina Barlett.

Os resultados da investigação foram publicados esta sexta-feira na Science.

TAGGED:AntártidaCiência & SaúdeDestaqueGeofísica
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