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Home - Ciência - Investigador constrói detector de laboratório cem vezes mais barato do que os modelos importados

CiênciaSaúde e Bem Estar

Investigador constrói detector de laboratório cem vezes mais barato do que os modelos importados

A escassez de fundos para renovar equipamento científico não é exclusiva de um país. Um estudo conduzido na Universidade Federal do ABC, no Brasil, oferece uma resposta prática a esse desafio comum a universidades e escolas técnicas em todo o mundo.

Last updated: 4 Julho, 2026 20:12
Erre Soares
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scientist operating rotary evaporator in laboratory
Photo by Maikol Herrera on Pexels.com
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O investigador José Carlos Rodrigues, do Centro de Ciências Naturais e Humanas (CCNH) daquela universidade, concebeu e testou um detector de ionização em chama de dimensões reduzidas, componente indispensável em qualquer cromatógrafo gasoso, usado para identificar compostos orgânicos voláteis presentes numa amostra. O trabalho foi divulgado pela revista Qualis A Open Minds, pertencente ao CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena.

Instrumentos concebidos para um problema que a maioria não tem

O autor nota que o mercado avançou sobretudo na direção de aparelhos capazes de captar concentrações na ordem das partes por bilião, pensados para grandes laboratórios industriais e centros de investigação avançada. Sucede que a generalidade das escolas técnicas e dos laboratórios de rotina precisa apenas de sensibilidade na faixa das partes por milhão.

A imagem escolhida no próprio artigo resume bem a desproporção: recorrer a esse tipo de equipamento para controlos simples equivaleria a usar um canhão para matar uma formiga.

Foi precisamente essa distância entre a sofisticação disponível e a necessidade real que serviu de ponto de partida para o desenvolvimento de uma alternativa mais pequena, mais económica e igualmente rigorosa.

Uma chama contida em aço inoxidável

O núcleo do dispositivo é maquinado inteiramente em aço inoxidável 316L, distribuído por três módulos:

  • A base, onde se encontram a entrada do gás de combustão e a saída da coluna cromatográfica.
  • O corpo superior, que aloja o coletor de iões e o sistema de ignição.
  • O corpo inferior, onde está montado o maçarico responsável pela chama.

O princípio de funcionamento mantém se fiel à técnica original. Uma chama alimentada a hidrogénio e oxigénio queima os compostos orgânicos provenientes da coluna. Entre dois elétrodos forma se um campo elétrico que capta os iões libertados durante a combustão e converte essa corrente numa medida proporcional à quantidade de carbono presente.

A verdadeira inovação está na escala. Ao diminuir de forma acentuada o volume de gases combustíveis e oxidantes necessários, o protótipo torna se não só mais pequeno como também mais seguro, aspeto relevante quando o equipamento é manuseado por estudantes ainda em formação.

Comparado diretamente com um modelo comercial

Testar em teoria não bastava. O investigador acoplou o miniFID a um cromatógrafo Shimadzu GC 14A e repetiu as mesmas análises num aparelho comercial de referência, o Shimadzu GC 2010, para comparar os resultados lado a lado.

Duas séries de ensaios sustentam as conclusões do artigo:

  • Uma mistura de hidrocarbonetos, entre eles n dodecano, n tetradecano, n hexadecano e n octadecano, na qual o protótipo separou os quatro compostos com a mesma clareza que o equipamento comercial.
  • Uma mistura de álcoois, composta por n butanol, n pentanol, n hexanol e n heptanol, escolhida para verificar se a presença de oxigénio nas moléculas comprometeria a resposta do detector, algo que não se confirmou de forma significativa.

Os picos obtidos pelo miniFID em ambos os ensaios apresentaram forma e tempo de retenção compatíveis com os do aparelho de referência, o que confirma a sua aplicabilidade em rotinas analíticas reais.

O valor final que reforça a proposta

O argumento mais convincente do estudo é talvez o financeiro. Contando peças, maquinagem e componentes eletrónicos, o custo total do protótipo rondou os trezentos dólares, uma fração do praticado pelos fabricantes internacionais de detectores para cromatografia gasosa.

Para o autor, este é exatamente o tipo de iniciativa capaz de aproximar os estudantes da prática laboratorial, sem depender de importações dispendiosas nem de orçamentos avultados, algo particularmente pertinente para escolas técnicas e laboratórios de controlo de qualidade com meios limitados.

Uma tecnologia de 1958 numa versão de bolso

O detector de ionização em chama surgiu quase em simultâneo em dois laboratórios distantes, um na Austrália, com I. G. McWilliam e R. A. Dewar, outro na África do Sul, com J. Haley, W. Nel e V. Pretorius, ambos em 1958. Desde então, tornou se uma peça praticamente universal em qualquer cromatógrafo gasoso vendido no mundo.

O miniFID desenvolvido na UFABC preserva os mesmos princípios que sustentam a tecnologia há quase sete décadas, apenas reajustados a uma escala e a um orçamento compatíveis com laboratórios de menor dimensão.

O projeto contou com apoio institucional da FAPESP, da CAPES e do CNPq.

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