Um dos fatores que pode dificultar a adaptação de alguns imigrantes a um país estrangeiro é o narcisismo ou um egocentrismo exacerbado. Não falo de todos os imigrantes, nem sequer da maioria. Falo de um padrão comportamental que existe e que merece ser observado sem receio de contrariar discursos mais confortáveis.
Há pessoas que deixam o Brasil, mas chegam a outro país esperando que seja a sociedade de acolhimento a adaptar-se às suas vontades. Em vez de procurarem compreender a cultura local, respeitar os hábitos e reconhecer códigos sociais construídos ao longo de gerações, tentam reproduzir o seu próprio modelo de vida como se o país que escolheram tivesse a obrigação de se reorganizar à sua medida.
Preservar a própria identidade é legítimo. Impô-la é outra coisa.
Alguns querem ser aceites independentemente da forma como se inserem na sociedade. Reivindicam direitos, reconhecimento e acolhimento, mas esquecem-se de que o sentimento de pertença também se constrói através da convivência, do respeito, da participação e da capacidade de compreender uma cultura que já existia muito antes da sua chegada.
Os direitos legais não dependem do tempo de permanência num país e devem ser respeitados. A integração social, porém, não se resume àquilo que se pode exigir juridicamente. Existe também uma dimensão humana. Quem chega precisa de observar, compreender, aprender e perceber que nem todas as diferenças culturais representam uma afronta pessoal.
Quando as expectativas não são correspondidas, aparece a desilusão.
E é precisamente nesse momento que surge um dos mecanismos psicológicos mais interessantes. Torna-se muito mais fácil responsabilizar o país, os habitantes locais, a sociedade ou o contexto do que admitir que parte do conflito pode estar na própria postura.
A pessoa sente-se desiludida, mas raramente considera a hipótese de estar a produzir parte da sua própria desilusão.
Olhar para dentro exige mais esforço do que apontar para fora.
Pode faltar humildade para reconhecer que viver noutro país não significa apenas reivindicar espaço. Significa também compreender o espaço onde se decidiu viver. Integração não é submissão cultural, mas também não pode significar exigir que a sociedade de acolhimento abandone os seus próprios códigos para satisfazer as expectativas individuais de quem acaba de chegar.
Conheço esta realidade a partir de uma posição muito particular.
Sou filho de portugueses, nascido no Rio de Janeiro e criado durante grande parte da minha vida num bairro marcado por uma forte comunidade portuguesa. Cresci rodeado por hábitos, referências familiares e formas de viver herdadas de Portugal. Muitas delas pertenciam a um Portugal de outras décadas, preservado pelas famílias emigrantes quase como uma fotografia que o tempo brasileiro não conseguiu apagar.
Essa experiência produziu em mim uma relação peculiar com o país.
Durante muitos anos, senti-me culturalmente mais português do que algumas pessoas nascidas em Portugal. Não porque exista uma medida objetiva de “ser mais português”, mas porque determinadas tradições, valores familiares e referências culturais estavam profundamente presentes na minha formação.
Testes de ancestralidade genética que realizei também indicaram uma elevada componente portuguesa na minha ascendência. Isso é um dado genealógico, não um certificado cultural nem um critério de pertença. Cultura e cidadania não se medem pelo ADN.
Sou também descendente de António de Abreu, navegador português associado ao período das grandes navegações, dentro de uma história familiar que sempre manteve Portugal presente na construção da minha identidade.
Talvez por isso eu observe esta questão simultaneamente por dentro e por fora.
Conheço a cultura brasileira porque nela nasci e cresci. Conheço a portuguesa porque esteve dentro da minha casa antes mesmo de eu conhecer Portugal como país vivido.
E foi precisamente essa proximidade que me ensinou algo que considero simples: chegar a um país não nos dá autoridade para redefini-lo segundo as nossas expectativas.
Quem escolhe viver numa sociedade diferente precisa de preservar a própria identidade sem perder a capacidade de respeitar a identidade colectiva do lugar que o recebeu.
Nem toda dificuldade de adaptação é culpa do imigrante. Existem xenofobia, preconceito, exploração laboral e injustiças reais. Negá-los seria intelectualmente desonesto.
Mas também seria desonesto afirmar que toda frustração do imigrante é produzida pelo país de acolhimento.
Às vezes, o problema está fora.
Outras vezes, está dentro.
E maturidade talvez seja precisamente a capacidade de distinguir uma coisa da outra.


