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Os achados arqueológicos perdidos de Alcácer do Sal

Redação/Paivense
Last updated: 22 Fevereiro, 2026 22:29
Redação/Paivense
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Escavações - Alcácer © Divulgação
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Há acontecimentos que, embora circunscritos a uma realidade local, revelam fragilidades mais profundas do Estado e da forma como uma comunidade política se relaciona com a sua própria memória. O recente episódio ocorrido em Alcácer do Sal, amplamente noticiado pela imprensa nacional, em que cerca de seis mil peças arqueológicas ficaram submersas em consequência das cheias, deve ser compreendido precisamente nessa perspetiva mais ampla. Não estamos perante um simples acidente provocado pela natureza, mas diante de um facto que interpela diretamente a responsabilidade pública na preservação do património cultural.

Alcácer do Sal constitui um dos mais antigos núcleos urbanos continuamente ocupados da Península Ibérica. A sua posição estratégica junto ao rio Sado fez dela, ao longo de milénios, ponto de encontro de povos e civilizações diversas, desde comunidades pré-históricas até fenícios, romanos e muçulmanos. Cada fragmento cerâmico, cada instrumento, cada vestígio encontrado nas escavações arqueológicas representa uma peça de um vasto puzzle histórico cuja recomposição permite compreender não apenas a história local, mas também a formação cultural do território português. Quando tais objetos são postos em risco, não se danificam apenas bens materiais; compromete-se conhecimento científico que jamais poderá ser plenamente recuperado.

O episódio das inundações revelou, antes de mais, a vulnerabilidade estrutural de muitas reservas museológicas portuguesas. Não é desconhecido que inúmeros espólios arqueológicos se encontram armazenados em espaços adaptados, frequentemente situados em caves ou edifícios antigos, sem condições ideais de conservação preventiva. Esta realidade não resulta da incúria dos técnicos, cuja dedicação é geralmente exemplar, mas de uma insuficiência persistente de planeamento e investimento público. O património cultural permanece, demasiadas vezes, dependente da capacidade financeira das autarquias e da boa vontade de equipas reduzidas, quando deveria integrar uma política nacional coerente e estável.

A submersão das peças obrigará agora a um trabalho moroso e tecnicamente exigente de limpeza, estabilização e reclassificação. Em muitos casos será necessário repetir procedimentos equivalentes aos realizados após a própria escavação arqueológica. Tal esforço implica tempo, recursos especializados e financiamento continuado, elementos que raramente recebem a prioridade política que a sua importância justificaria. Acresce que parte da informação contextual associada aos objetos pode ter sido afetada, o que representa uma perda científica silenciosa, menos visível do que a destruição física, mas igualmente grave.

Importa recordar que a proteção do património cultural não constitui mera opção administrativa. Trata-se de um dever público que decorre da própria ideia de Estado e encontra fundamento constitucional. A comunidade política assume a obrigação de transmitir às gerações futuras os testemunhos materiais da sua história coletiva. Não basta celebrar o passado em discursos comemorativos ou promover a imagem histórica do país para fins turísticos; é necessário garantir condições concretas de preservação, prevenção e resposta a situações de risco.

As cheias que atingiram Alcácer do Sal eram, em larga medida, previsíveis enquanto fenómeno natural num território ribeirinho. A previsibilidade do risco deveria ter conduzido a estratégias preventivas adequadas, designadamente a localização segura das reservas arqueológicas, a existência de planos de emergência específicos para acervos culturais e a digitalização sistemática dos inventários. A ausência dessas medidas revela uma falha que não é apenas técnica, mas sobretudo política, pois traduz a persistente tendência para considerar o património como matéria secundária face a outras prioridades públicas.

Todavia, a situação presente pode ainda transformar-se numa oportunidade. A necessária reorganização do espólio não deve limitar-se a uma operação de salvamento destinada a repor a normalidade anterior. Poderá antes constituir o momento adequado para repensar o modelo de conservação arqueológica em Portugal, reforçando a cooperação entre administração central, autarquias, universidades e centros de investigação, criando infraestruturas modernas de armazenamento e promovendo a inventariação digital integral dos acervos. A recuperação das peças pode, assim, converter-se num projeto científico e institucional exemplar.

Existe uma dimensão simbólica neste episódio que não deve ser ignorada. A lama que cobriu milhares de objetos recorda que a história não é uma abstração distante, mas uma realidade material vulnerável às contingências do presente. Um país mede também a sua maturidade cívica pela forma como protege aquilo que herdou e que não pode voltar a criar. Estradas constroem-se novamente, edifícios erguem-se de raiz, mas o património arqueológico, uma vez perdido, desaparece definitivamente.

Os achados arqueológicos de Alcácer do Sal não pertencem apenas à cidade nem sequer apenas à geração atual. São parte integrante da memória coletiva nacional. A resposta que agora for dada determinará se este episódio ficará registado como uma fatalidade inevitável ou como o momento em que o Estado português compreendeu finalmente que preservar o passado é uma das formas mais exigentes de responsabilidade perante o futuro.

Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor

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