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Home - Internacional - Grande Reportagem: “O Consulado-Geral de Portugal em Lyon pertence à comunidade e só existe porque temos uma comunidade tão numerosa”

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Grande Reportagem: “O Consulado-Geral de Portugal em Lyon pertence à comunidade e só existe porque temos uma comunidade tão numerosa”

Last updated: 7 Junho, 2026 2:54
Erre Soares
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Imagem: João Marco de Deus, cônsul-geral de Portugal em Lyon. Fotos: Agência Incomparáveis
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Aos 49 anos de idade e com 27 dedicados à carreira diplomática, após passagens por destinos no Brasil e na Suíça, João Marco de Deus recebeu a nossa reportagem nas instalações do Consulado-Geral de Portugal em Lyon, para uma entrevista exclusiva realizada nove meses após a sua chegada à segunda maior jurisdição consular portuguesa em França, onde traçou um retrato profundo da comunidade portuguesa, explicou a transformação interna do Consulado e deixou uma visão clara sobre o papel atual da diplomacia lusa junto da diáspora.

Logo na abertura da conversa, ao ser questionado sobre o significado de Lyon nesta nova fase da sua carreira diplomática, João Marco de Deus começou por enquadrar a dimensão humana e estratégica do posto que atualmente dirige. Referindo-se à presença portuguesa em território francês, este diplomata foi direto: “Não é um país lusófono, é certo, mas é um país com uma comunidade muito grande. Aliás, a maior comunidade de portugueses no mundo está em França”, disse.

Ao aprofundar a realidade específica de Lyon, o cônsul-geral fez questão de contextualizar a dimensão do trabalho desenvolvido no terreno.

“Lyon, se começarmos já a falar da comunidade, constitui a segunda maior comunidade portuguesa e lusodescendente em França. É um posto consular, é o segundo maior Consulado-Geral em França, com muitos portugueses inscritos, perto de 300 mil, com uma equipa que não é muito grande, composta por 17 funcionários, mas que funciona muito bem”, afirmou.

Sobre a estrutura humana que encontrou quando assumiu funções, João Marco de Deus não escondeu a satisfação.

“Vim encontrar uma equipa muito bem rotinada, com um ótimo equilíbrio entre funcionários mais jovens, há poucos anos no Consulado, e, portanto, com aquela dinâmica e aquele conhecimento até das novas tecnologias, o que faz falta, por vezes, aos mais antigos, mas também vim encontrar funcionários com mais anos de casa e com a experiência que também é necessária para conseguir equilibrar um grupo de trabalho”, sustentou.

No entanto, ao abordar as instalações físicas, o diagnóstico foi diferente, levando o diplomata a assumir que o edifício precisava de intervenção e de “muito carinho”. Foi nesse contexto que deixou uma das frases mais icónicas de toda a entrevista.

“Ao contrário do grupo de trabalho, como eu disse, que é muito bom, as instalações estavam a precisar de muito carinho e foi isso que procurei fazer nestes nove meses desde a minha chegada a Lyon, tentando corrigir alguns aspetos que estavam menos bem, de forma que hoje conseguimos voltar a acolher eventos de índole cultural, económica, ligados às comunidades, e passar a mensagem aos portugueses de Lyon, da nossa jurisdição consular, a mensagem de que este Consulado-Geral lhes pertence e só existe porque temos esta comunidade tão numerosa”, afirmou.

Uma jurisdição maior do que Portugal continental

Ao explicar a dimensão territorial da missão que lidera, João Marco de Deus destacou que o trabalho do Consulado-Geral vai muito além da cidade de Lyon. Contextualizando o alcance geográfico da jurisdição, o diplomata explicou que, “quando falamos no Consulado-Geral em Lyon, não cobre só Lyon. Cobre toda a região Bourgogne/Franche-Comté e a região onde nos encontramos, que é Auvergne/Rhône-Alpes. As duas juntas são maiores do que Portugal continental”, enfatizou.

A dimensão territorial implica uma operação logística intensa, como o próprio fez questão de sublinhar.

“A realidade da nossa jurisdição obriga-nos a ter um quadro de permanências consulares muito vasto, deslocações de centenas de quilómetros. Todas as sextas-feiras praticamente temos permanências consulares, em que geralmente dois funcionários se ausentam aqui de Lyon e vão atender portugueses em todos os cantos da nossa jurisdição”, revelou.

Ainda sobre o funcionamento interno dos serviços, João Marco de Deus destacou um dado particularmente relevante para a comunidade.

“Em termos de serviço, não temos lista de espera, o que só por si é muito bom. Não temos lista de espera para agendamentos”, salientou, explicando que existem igualmente soluções para cidadãos com dificuldades tecnológicas.

“É uma comunidade que representa Portugal de forma absolutamente excecional”

Sobre a caracterização da comunidade portuguesa na região, João Marco de Deus começou por estabelecer paralelos com outras comunidades emigrantes onde já trabalhou, incluindo a Suíça.

“A comunidade portuguesa em Lyon é uma comunidade, na sua larga maioria, que ainda segue os padrões tradicionais da nossa diáspora. Uma comunidade que veio nos anos 1960, 1970, sobretudo, também 1980”, disse, avaliando a reputação dos portugueses junto das autoridades francesas.

“É uma comunidade que merece amplíssimo consenso e reconhecimento por parte das autoridades locais. Todos os locais aos quais onde eu me desloco têm sempre um maire presente, o presidente da Câmara Municipal no vocabulário português, que prestigia sempre os eventos da comunidade”, contou.

Mais tarde, e com particular orgulho, resumiu a perceção que recolhe no terreno.

“A conversa sobre a nossa comunidade é sempre a mesma: são pessoas honestas, são pessoas trabalhadoras, são pessoas a quem as Câmaras Municipais geralmente retribuem cedências de espaços a título gratuito ou com valores meramente simbólicos”, expressou, recordando que “temos casos esporádicos de problemas, como em todo o lado, mas é uma comunidade que representa Portugal de uma forma absolutamente excecional”, destacou.

Comunidade organizada

Ao abordar a vitalidade do movimento associativo português na região de Lyon, João Marco de Deus revelou números expressivos.

“Temos um movimento associativo muito eclético. Devemos ter à volta de 80 associações que nós julgamos ativas”, afirmou, acrescentando que valoriza a coordenação entre as instituições.

“Grandes associações, eu diria talvez umas 20, estão felizmente bem coordenadas entre elas. Há um trabalho de tentativa de coordenação para evitar sobreposição de eventos, para trocar boas práticas, e isso é uma coisa excecional”, disse.

Sobre o papel do Consulado-Geral neste processo, deixou uma mensagem clara.

“A presença institucional do Consulado-Geral nos eventos associativos é importante para dizer à comunidade que nós estamos aqui, presentes para servir a comunidade”, salientou.

Requalificação, dignidade e um Consulado-Geral com 50 anos

João Marco de Deus falou também sobre a história do edifício e do trabalho de recuperação em curso, começando por recordar que a atual sede do Consulado-Geral “já tem 50 anos” com uma “história que já serviu várias gerações”.

“O Consulado-Geral necessitava de uma requalificação, desde retirada de material em desuso, pinturas das paredes, troca de mobiliário até várias questões de sinalética interna e externa, e fomos fazendo um trabalho gradual”, afirmou, acrescentando que “o mais importante era, de facto, devolver uma dignidade que permitisse voltar a acolher os portugueses que nos visitam todos os dias. E estamos a falar de 150 a 200 pessoas por dia”.

“O cônsul-geral é um servidor público, não uma figura sobrenatural”

Relativamente aos desafios atuais da diplomacia portuguesa, João Marco de Deus acredita que “havia um desafio, e continua a existir um desafio, para os postos diplomáticos e consulares, de uma diplomacia pública que favoreça a proximidade com os cidadãos portugueses e os lusodescendentes”, acrescentando que “o cônsul-geral é um servidor público, acima de tudo, não é nenhuma figura sobrenatural que esteja acima de ninguém, pelo contrário”.

Ao falar da comunicação institucional que o Consulado-Geral tem procurado imprimir na sua ligação à comunidade, o diplomata atestou que “as redes sociais são hoje um veículo incontornável, e não complementar. A imagem dos postos diplomáticos e consulares passa pelas redes sociais”, sustentou.

“A língua portuguesa já não é de Portugal há 500 anos”

Na reta final da conversa com a nossa reportagem, e ao abordar os eventos culturais realizados no Consulado-Geral e a abertura do mesmo aos países lusófonos, João Marco de Deus deixou uma visão clara sobre o papel que hoje assume a língua portuguesa.

“A língua portuguesa, não me canso de repetir, não é de Portugal. Já não é de Portugal há 500 anos”, enfatizou, comentando que é intenção do Consulado-Geral em Lyon que cada vez mais haja nacionais de outros países de língua portuguesa a participar nos nossos eventos”. Sobre esse caminho, o diplomata concluiu realçando que “isso só pode valorizar o Consulado-Geral na sua atividade cultural. Não tenho dúvida absolutamente nenhuma em relação a isso”.

De Lyon institucional à França profunda: Cônsul-geral conduziu a Agência Incomparáveis por paisagens, história e identidade

Terminada a entrevista exclusiva nas instalações do Consulado-Geral de Portugal em Lyon, onde falou sobre comunidade, serviço público, cultura e diplomacia de proximidade, João Marco de Deus trocou temporariamente o gabinete diplomático pela estrada e guiou a Agência Incomparáveis numa reportagem especial pelo Interior profundo da região lionesa.

Longe do protocolo institucional, mas mantendo intacta a mesma proximidade e capacidade de comunicação que marcou toda a entrevista, este responsável diplomático fez questão de mostrar à nossa equipa uma outra dimensão de França, menos urbana, menos mediática e, nas suas próprias palavras, “profundamente ligada à história europeia e, em vários momentos, surpreendentemente próxima de Portugal”.

Entre aldeias medievais, castelos, vinhas centenárias, paisagens agrícolas e referências gastronómicas incontornáveis da região do Ródano, João Marco de Deus partilhou conhecimento histórico, curiosidades culturais e até momentos de humor, numa viagem que acabou por revelar também um lado mais pessoal do representante do Estado português em Lyon.

Oingt: a aldeia medieval que faz o cônsul-geral recordar Portugal

Cerca de 25 quilómetros de Lyon, já em plena paisagem rural francesa, a reportagem chega à primeira paragem: a histórica aldeia medieval de Oingt. João Marco de Deus começou por contextualizar o local onde nos encontrávamos. Com naturalidade, e apontando para a paisagem em redor, o diplomata explicou: “Aqui estamos na aldeia medieval de Oingt. Está a cerca de 40 minutos de carro de Lyon e é um dos melhores exemplares próximos de Lyon de muitas aldeias medievais”.

Enquanto caminhava pelas ruas de pedra, rodeado por construções centenárias, o português João aproveitou para destacar uma das características que mais aprecia na região onde atualmente exerce funções. 

“Lyon tem essa grande vantagem. Sendo uma grande cidade, é fácil sair e é fácil encontrarmos no meio do caminho castelos e igrejas seculares, que nos fazem lembrar um bocadinho aquilo que é o nosso Portugal também”, salientou.

Entre vinhas históricas, surge Beaujolais

A viagem prosseguiu pelos campos da região do Ródano, onde as vinhas desenham quilómetros de paisagem e ajudam a definir a identidade económica e cultural da região. Diante de extensas encostas cobertas por cepas, João Marco de Deus assumiu novamente o papel de anfitrião. Enquanto mostrava à nossa reportagem a paisagem agrícola, explicou com detalhes o cenário.

“Aqui viemos ver as vinhas, as cepas, que dão origem a um dos produtos mais famosos da região do Ródano, que é o Beaujolais. Toda a gente já ouviu falar do Beaujolais. Que não é tão conhecido como o Bourgogne, região um bocadinho mais à frente, mas que é um excelente vinho e vem aqui destas vinhas todas desta região”, destacou.

O momento permitiu compreender a forte ligação entre território, tradição agrícola e identidade regional, uma realidade que o próprio diplomata fez questão de valorizar ao longo de todo o percurso.

“Em Lyon come-se de uma forma absolutamente escandalosa de bem”

Da paisagem agrícola, a conversa e o passeio seguiram naturalmente para outra das marcas identitárias da região: a gastronomia. Já sentado à mesa numa tradicional “creperie”, que costuma frequentar, João Marco de Deus recuperou uma das ideias que já tinha deixado na entrevista institucional sobre Lyon ser considerada a capital gastronómica de França.

Com humor e espontaneidade, olhando para o prato servido, afirmou: “Nada melhor do que demonstrar na prática aquilo que vos disse há pouco: que se come em Lyon, e na região de Lyon, de uma forma absolutamente escandalosa de bem”, disse.

“Estamos aqui numa das melhores “creperies” a provarmos a famosa “galette” da Bretagne. Esta é completa porque leva queijo, fiambre e um ovo”, revelou.

“Não há uma só França… há duas Franças”

Já de regresso às ruas medievais, João Marco de Deus acabou por fazer uma reflexão importante. Observando o horizonte, as casas em pedra e a tranquilidade do Interior francês, o cônsul-geral português partilhou uma leitura social e histórica sobre o país onde hoje representa Portugal.

“Aqui, nesta aldeia, conseguimos tomar o pulso a uma de duas Franças, porque não há uma só França. Há a França que nós conhecemos dos filmes, a França das grandes cidades, das periferias complicadas e, depois, há a França rural”, contou, acrescentando que “a França rural existe em qualquer região de França e tem estes exemplares de aldeias absolutamente magníficas, que nos fazem lembrar um bocadinho as nossas aldeias, a nossa história, porque a história de Portugal e de França estão ligadas à história europeia”.

As raízes de Portugal também passam por França

Perante a paisagem medieval, o diplomata partilhou também uma curiosidade pouco conhecida do grande público.

“É muito curioso, e poucos portugueses sabem, e os franceses também, que Portugal encontra uma parte distante das suas raízes em França, porque é de Dijon que vai para o Condado Portucalense, assumir o Condado Portucalense, o conde Dom Henrique de Borgonha, que era, nem mais nem menos, que o pai do nosso Dom Afonso Henriques”, recordou.

Uma aldeia para visitar em família

Na reta final do percurso, de novo em Oingt, o cônsul-geral revelou uma dimensão mais pessoal da sua relação com aquele espaço e da forma como escolheu viver esta missão diplomática. Ao ser questionado sobre o que mais aprecia naquele local, respondeu num registo mais pessoal.

“Eu saio muito de Lyon, da urbe, ao fim de semana e gosto muito de vir aqui sozinho, em família, porque além de ser uma aldeia medieval conservadíssima, no inverno, por volta do Natal, as ruas estão cheias de pinheiros de Natal”, valorizou.

O valor da diáspora portuguesa e lusófona

No encerramento desta grande reportagem, João Marco de Deus deixou uma mensagem direta para as comunidades portuguesas e lusófonas espalhadas pelo mundo e, muito em particular, para a comunidade portuguesa e lusodescendente da região de Lyon.

Com o mesmo tom de proximidade que marcou toda a entrevista, começou por reforçar a importância da comunicação direta entre consulados e comunidade.

“Queria terminar com a mensagem de que nos podem seguir, pois, tudo o que nós fazemos no Consulado-Geral em Lyon, está no nosso Facebook, que nós dinamizámos muito nestes últimos meses e que pode ser consultado em: https://www.facebook.com/consuladogeraldeportugalemlyon”, afirmou.

O cônsul-geral alargou o convite para acompanharem a atividade consular portuguesa em Lyon a todos os falantes de língua portuguesa, independentemente do país onde estejam.

“Dirijo este convite para nos seguirem, obviamente, a quem vive na área de jurisdição de Lyon e tem um interesse muito concreto em saber o que se passa aqui, mas também para todos os nossos ouvintes lusófonos por todos os cantos do mundo onde virem esta reportagem”, disse.

João Marco de Deus fechou a sua intervenção com uma frase que resume não apenas esta reportagem, mas a visão diplomática que tem procurado implementar em França.

“Não deixem de vir aqui a esta região, que é magnífica, e não deixem de nos procurar no Consulado-Geral, que é a casa dos portugueses e também de todos os que falam português”, concluiu João Marco de Deus.

Ígor Lopes

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