Brasília (DF) – Lula da Silva garantiu a reeleição para a presidência da República ao bater Flávio Bolsonaro numa corrida eleitoral extremamente renhida. Às 20h53 de domingo, com 78% dos boletins de voto escrutinados, o candidato do PT liderava com 51,27% dos votos, superando os 48,73% obtidos pelo representante do PL.
Noite eleitoral de contornos dramáticos
A contagem teve momentos de grande incerteza nas ruas e nas projeções. Lula arrancou na frente, mas Flávio assumiu a liderança às 19h47 locais, altura em que cerca de 15% das urnas estavam apuradas e o slogan contrariando o petista ecoava por vários prédios. O cenário inverteu-se às 20h25, quando o candidato do PT recuperou a primeira posição e os apoiantes responderam com cânticos, embora ainda faltasse escrutinar grande parte do Sudeste, a zona mais populosa e favorável a Flávio.
Apesar da incerteza nas urnas, o dia ficou marcado por fortes turbulências logísticas. Desde o início da tarde, multiplicaram-se denúncias de cortes superiores a 50% na frota de autocarros em municípios da Bahia, como Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, desrespeitando a ordem da Justiça Eleitoral para garantir transporte gratuito equivalente a um dia útil. O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ordenou o restabelecimento total dos veículos e a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade de Salvador, sob coima de um milhão de reais por hora.
Tensão jurídica e intervenção do STF
Situações semelhantes foram reportadas em São Paulo, onde o PT apontou uma circulação de apenas 60% dos autocarros e exigiu a detenção do titular da pasta da Mobilidade Urbana. A empresa de transportes atribuiu o constrangimento a reestruturações nas escalas dos motoristas. Indignado, Lula criticou duramente a situação durante a tarde.
A tensão jurídica chegou mesmo ao STF. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kássio Nunes Marques, recusou prolongar o horário de votação nos estados afetados, forçando o STF a intervir à beira do fecho das urnas. O juiz Cristiano Zanin determinou a extensão da votação por duas horas, acedendo aos protestos do PT e aos pedidos do PL, que relatavam atrasos devido a chuvas fortes no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Contudo, como milhares de equipamentos já tinham encerrado, a medida gerou confusão e só se aplicou às secções que continuavam abertas.
Incidentes climatéricos e operacionais
No setor aéreo, cancelamentos de voos entre o Sul e o Nordeste alimentaram suspeitas de sabotagem nas redes sociais. A Agência Nacional de Aviação Civil confirmou quatro voos cancelados pelas companhias Gol, Azul e Latam entre sábado e domingo, mas garantiu não ter detetado nenhuma articulação coordenada para bloquear os eleitores.
A instabilidade climática também afetou o sufrágio. Intensas chuvadas obrigaram a alterar locais de voto em Itapevi, Curitiba e Guaratuba, onde estradas federais ficaram inundadas. No Rio de Janeiro, cerca de 3.000 eleitores do bairro Jardim Sulacap tiveram de mudar de escola devido a uma infestação de pulgas detetada junto às urnas eletrónicas.
De manhã, os dois candidatos cumpriram o dever cívico. Flávio Bolsonaro votou cedo na Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro, classificando a campanha como limpa e alertando que a esperança se tinha transformado em medo face à criminalidade e à crise económica. Uma hora mais tarde, Lula votou em São Bernardo do Campo, ladeado por aliados, declarando que a batalha foi travada contra a mentira e rejeitando a presença de um miliciano no Palácio do Planalto.
No balanço final divulgado pelo TSE, apenas 114 urnas eletrónicas precisaram de ser substituídas num universo superior a 114 mil equipamentos. Em Valinhos, no interior paulista, um votante acabou detido por utilizar o telemóvel na cabine de voto.


