O Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, voltou a colocar Portugal no centro do debate sobre o passado colonial ao citar uma frase do escritor uruguaio Eduardo Galeano: “O ouro brasileiro deixou buracos no Brasil, templos em Portugal e fábricas na Inglaterra”. A declaração foi feita num discurso sobre a exploração das terras raras e dos minerais críticos brasileiros.
A frase não é da autoria de Lula. Surge associada à obra As Veias Abertas da América Latina, de Galeano, e sintetiza uma leitura crítica do ciclo do ouro: a riqueza extraída no Brasil colonial beneficiou Portugal e, através das relações comerciais portuguesas com Inglaterra, também alimentou a economia britânica.
Lula utilizou a referência histórica para defender que o Brasil não deve repetir esse modelo com as terras raras. O Presidente afirmou aceitar a presença de empresas estrangeiras, mas defendeu que a exploração e transformação dos recursos ocorram segundo regras brasileiras e com criação de valor dentro do país.
A declaração surge num contexto em que minerais críticos ganharam peso económico e geopolítico, sobretudo pela utilização em tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrónicos. Lula tem insistido que o Brasil deve evitar limitar-se à exportação de matéria-prima e desenvolver capacidade industrial própria.
A referência a Portugal tem, porém, natureza histórica. No discurso citado, Lula não apresentou uma medida contra o atual Estado português nem anunciou qualquer conflito diplomático com Lisboa. A crítica dirigiu-se ao modelo colonial de exploração de recursos e serviu de comparação com o debate atual sobre as reservas minerais brasileiras.


