PENAFIEL — O asfalto já está marcado, as barreiras de segurança colocadas e o som dos motores começa a fazer-se ouvir em pano de fundo. Entre os dias 12 e 14 de junho, Penafiel transforma-se no epicentro do desporto motorizado europeu. Para compreender a magnitude logística, o impacto social e as grandes novidades deste ano, o Jornal Paivense entrevistou em exclusivo Óscar Coelho, o rosto da organização liderada pela CDDC e pelo Município de Penafiel.
Jornal Paivense (JP): Óscar, entramos na 8.ª edição com uma expectativa gigante de 150 mil espetadores. Este ano, há uma forte perceção de que o festival quer focar-se menos na frieza das máquinas e muito mais na “massa humana” e na experiência dos visitantes. Esta é a grande viragem do Penafiel Racing Fest?
Óscar Coelho: Sem dúvida alguma. O Racing Fest nasceu, na sua génese, para ser uma homenagem a todos os pilotos da região do Tâmega e Sousa, especialmente para os do concelho de Penafiel. Nós criámos este conceito puramente urbano precisamente para aproximar os pilotos e as suas modalidades dos espetadores, dos familiares e dos amigos que, por norma, não têm facilidade em deslocar-se às montanhas para assistir a este tipo de espetáculo. Levar as corridas às pessoas, e não esperar que as pessoas vão às corridas, foi o nosso toque de mágica.
Ao longo dos anos, apercebemo-nos de que o público quer ver os carros e as motas, claro, mas quer sobretudo sentir o ambiente, ver pessoas giras, rir, conversar com os pilotos e usufruir de um pódio bonito. Querem festa. Por isso, este ano, a nossa “irreverência e ousadia” passa muito por consolidar essa experiência humana, tornando o recinto um espaço vivo onde todos se sentem integrados.
JP: O Jornal Paivense, através do grupo iMF Press Global, constatou que esta edição vai registar o maior recorde de público brasileiro da história do evento, reflexo do enorme crescimento da comunidade imigrante na nossa região. Como é que a organização encara este fenómeno?
Óscar Coelho: Encara com um orgulho imenso e de braços abertos. Penafiel e todo o Vale do Sousa são palcos de um dinamismo económico e comercial fantástico, e a comunidade brasileira tem sido um motor extraordinário desse crescimento, escolhendo a nossa região para viver e trabalhar. O desporto tem esta capacidade única de unir culturas. Saber que o Racing Fest — um evento 100% gratuito — se tornou a grande romaria e o ponto de encontro desta comunidade é maravilhoso.
Esta enorme repercussão transatlântica e o volume de público brasileiro chamaram, inclusive, a atenção do prestigiado jornalista Igor Lopes, que acompanha de perto os grandes movimentos da Lusofonia. Para nós, é a validação de que o festival já não é apenas um evento desportivo nacional; é uma plataforma de ligação cultural e de integração entre os povos de língua portuguesa.
JP: Na pista, o cartaz de pilotos internacionais e nacionais deste ano é digno de um verdadeiro “Mundial” do asfalto. Que nomes fariam vibrar qualquer adepto do desporto motorizado?
Óscar Coelho: Temos um alinhamento de luxo que nos prestigia muito. Na vertente do Drag Racing, na Variante do Cavalum, temos o José “Zezé” Realista, um piloto que alcançou o topo absoluto e detém o recorde mundial do carro a gasóleo com tração dianteira mais rápido do planeta com o seu célebre VW Polo TDI. É um espetáculo bruto e explosivo que ninguém quer perder.
Nas duas rodas, a armada espanhola vem com tudo: temos o Xosé Anxo Ares, vindo da Galiza, que é bicampeão de Espanha de Hard Enduro Élite Júnior e atual líder do Campeonato Nacional em Portugal; e temos também o fenómeno digital do Welele Hard Enduro Team, um piloto e influencer carismático que arrasta milhares de jovens nas redes sociais e que traz uma energia fantástica para o Super-Enduro Urbano.
E, claro, jogando em casa, temos os nossos heróis locais, como o Emanuel Costa, um piloto de Penafiel que é Campeão Europeu de Ultra4 e uma lenda viva do Trial 4×4 Extremo. Ver estas potências mundiais a competir nas nossas ruas é algo colossal.
JP: A nível de programa, nota-se um forte reforço na animação e na cultura, nomeadamente com a parceria estabelecida com o Ponto C Cultura e Criatividade. O que muda no Palco PRF?
Óscar Coelho: A nova gestão do Palco PRF a cargo da excelente equipa do Ponto C é uma garantia absoluta de espetáculos e de artistas de elevada qualidade, algo que muito nos orgulha. Não podíamos esquecer a vertente cultural dentro deste cenário citadino. O palco das cerimónias de pódio terá mais de 30 horas de atividade contínua — com bandas, DJ’s e artes performativas —, destacando-se os concertos de The Black Wizards e o Tributo a Smashing Pumpkins, além das inovadoras batalhas de freestyle com a Roda Universo. Queremos que os nossos cerca de 2200 credenciados e a população tenham momentos de total descontração entre o calor das competições.
JP: O Rally da Taça Joaquim Santos continua a ser apontado como o “evento rei” do festival. O que significa para a organização e para a cidade manter este símbolo bem vivo no coração de Penafiel?
Óscar Coelho: Significa manter viva a nossa identidade. O Joaquim Santos foi uma figura extremamente querida a nível nacional e inspirou todas as gerações futuras de pilotos no início dos anos 80. Manter esta homenagem no centro do festival é como que um statement da nossa região de que somos feitos de uma fibra diferente.
Este piloto foi a prova viva de que um jovem de origens humildes, vindo de uma pequena comunidade local, conseguiu ser Tetra Campeão Nacional e bater-se de igual para igual com os maiores nomes do panorama mundial do desporto automóvel. Ele criou em todos nós a expectativa de que, se ele conseguiu estar naquele nível, todos nós podemos almejar chegar lá. É por causa desse legado que Penafiel é, hoje, o concelho com o maior número de campeões e vencedores de troféus em desportos motorizados de toda a Europa. É um prestígio inquestionável.
JP: Para terminar, após oito edições de sucesso e crescimento contínuo, até onde pode chegar o Penafiel Racing Fest nos próximos anos? O modelo está esgotado ou há margem para surpreender?
Óscar Coelho: O modelo está totalmente consolidado, mas longe de estar esgotado. Em termos de espaço físico dentro de Penafiel, estamos no nosso limite máximo para acolher mais inscritos ou público sem perder a segurança (que é a nossa prioridade absoluta e conta com o crivo rigoroso de observadores internacionais da FPAK e da FMP) e a mobilidade do paddock.
O próximo passo lógico é a expansão do próprio conceito. O Penafiel Racing Fest afirmou-se como o evento mais eclético da Europa e, desde que haja marcas ou empresas com capacidade de investir ao nível do marketing, este modelo pode perfeitamente ser replicado e exportado para outras localidades, como capitais de distrito. O futuro passa por profissionalizar ainda mais a equipa e, quem sabe, criar uma infraestrutura permanente que permita suprir as necessidades dos clubes e associações dedicadas aos desportos motorizados de alta competição. O motor de Penafiel não vai parar de acelerar.


