A Biblioteca de Penafiel foi o palco escolhido, na noite do passado dia 17 de julho, para a apresentação do mais recente romance do premiado escritor covilhanense João Morgado. Intitulada “Cemitério de Pardais”, a obra mergulha numa das temáticas mais estruturantes — e frequentemente ignoradas — da sociedade atual: o envelhecimento.
Numa sala repleta, que espelha a forte rede de apoio e a verdadeira “irmandade” de intelectuais que se tem consolidado na região, o evento destacou-se não só pela profundidade do debate, mas também pela convergência de artes. A apresentação literária foi antecedida por uma visita à exposição “reVER ESCRITAS”, do artista plástico *Bruno Santos, e embalada por um momento musical protagonizado pelo guitarrista *Daniel Lemos e pelo violoncelista e nyckelharpista Sérgio Calisto.
Entre o público e os convidados de relevo, o evento contou com a presença do luso-brasileiro e diretor de comunicação, Fabiano de Abreu Agrela, que marcou presença para prestigiar o colega de letras, evidenciando o espírito de entreajuda e partilha cultural que une os pensadores e investigadores lusófonos da região do Tâmega e Sousa.
A invisibilidade dos mais velhos
Durante a apresentação, João Morgado foi perentório ao criticar a forma como a modernidade lida com os seus idosos. Para o autor, a velhice é um tema que a sociedade observa com um “embaraço coletivo”.
“Vivemos numa sociedade que celebra a juventude, a beleza, a inovação tecnológica, a velocidade, a produtividade, o que empurra os velhos para as margens. A sociedade parece um daqueles móveis que se compram e se montam em casa. Tudo encaixa, mas no fim sobram sempre uns parafusos – são os velhos.” — João Morgado
O escritor sublinhou que Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa e que a literatura tem o dever moral de “dar rosto a quem a sociedade tende a tornar invisível”.

O protagonista de Cemitério de Pardais é um homem de 88 anos que faz o balanço da sua vida. A obra não foge à realidade da degradação física e mental, nem ao peso da solidão e do abandono familiar. No entanto, Morgado recusa o julgamento fácil. O abandono, refere, é tratado como uma “realidade complexa, feita de omissões” e de vidas demasiado ocupadas. O verdadeiro foco do livro é o contraste entre “o corpo que cede e o espírito que resiste”.
Um livro que “primeiro se estranha e depois se entranha”
A análise técnica e literária da obra ficou a cargo de *José Alberto Damas, que, perante a plateia em Penafiel, resumiu o impacto da leitura com uma definição precisa: é um livro que *primeiro se estranha e depois se entranha.
Para além da dor e da vulnerabilidade, Morgado confessou que este é, na sua essência, um livro sobre o amor. Um amor que sobrevive à morte, ilustrado pela devoção quase cega do protagonista, que continua a declamar poemas à mulher que perdeu num acidente.
Olhos postos no futuro e na internacionalização
Apesar do tom introspetivo desta obra, o autor covilhanense não abranda o ritmo. Questionado sobre os seus projetos futuros, João Morgado revelou que está a promover uma nova edição do romance histórico «Magalhães e a Ave-do-Paraíso», focado na figura de Fernão de Magalhães e na primeira viagem de circum-navegação.
Além disso, o escritor adiantou que se encontra a preparar traduções de várias das suas obras e a aventurar-se numa nova vertente criativa: a escrita de um guião para cinema. “Sempre na minha filosofia de aceitar trabalhos que me desafiem. Enquanto houver histórias para contar e leitores dispostos a ouvi-las, continuarei a fazê-lo”, rematou.


