O aumento súbito das temperaturas em Portugal está a provocar um pico preocupante de emergências médicas concentradas num curto espaço de tempo. Casos de enfarte do miocárdio, embolia pulmonar e acidentes vasculares cerebrais surgem de forma simultânea, gerando alertas graves sobre o stresse térmico. Esta acumulação de episódios fatais não é uma coincidência isolada, mas sim o resultado de uma sobrecarga severa no organismo humano.
O Dr. Fabiano de Abreu Agrela, cientista com Pós PhD em Neurociências e especialista em Genómica, esclarece os mecanismos desta resposta corporal. O investigador explica que o corpo humano opera numa janela térmica muito estreita e, perante o calor extremo, o sistema cardiovascular é forçado a reações drásticas de compensação para manter a temperatura interna estável.
O mecanismo da viscosidade sanguínea
Para dissipar o calor, o cérebro ordena uma vasodilatação periférica massiva, direcionando o fluxo sanguíneo para a pele. Este processo é acompanhado por uma sudação intensa que causa desidratação rápida. Com a perda acentuada de fluidos, o volume de sangue circulante diminui e a viscosidade do sangue aumenta.
Este estado de hipercoagulabilidade facilita a formação de coágulos nas artérias. Se um trombo obstruir os vasos coronários, ocorre o enfarte: se bloquear o fluxo para o cérebro, surge o AVC isquémico: e se a obstrução atingir os pulmões, causa uma embolia pulmonar fatal.
A exaustão do sistema nervoso central
O especialista, que integra a Royal Society of Biology do Reino Unido, enfatiza que o sistema nervoso central sofre um impacto profundo neste cenário. O hipotálamo, que funciona como o termóstato do corpo, entra em exaustão devido ao stresse autonómico prolongado.
Esta sobrecarga desregula a pressão arterial e compromete a barreira de proteção cerebral, desencadeando respostas inflamatórias que reduzem a capacidade do indivíduo de reconhecer os sinais de perigo e de falência do próprio organismo.
O gatilho para condições preexistentes
A rapidez com que estas fatalidades acontecem é explicada pelo esforço mecânico do coração, que acelera drasticamente os batimentos para compensar a queda da pressão arterial. Para pessoas com predisposições genéticas latentes ou patologias cardiovasculares preexistentes, esta exigência mecânica serve como o gatilho final para a rutura de placas arteriais e obstrução imediata.
A prevenção ativa, através da hidratação constante e do repouso em locais frescos, continua a ser a única manobra eficaz para mitigar esta crise silenciosa de saúde pública.


