Nos últimos meses, as redes sociais em Portugal transformaram-se numa espécie de mural de vigilância comunitária. Multiplicam-se as publicações, partilhadas milhares de vezes no Facebook, Instagram e em grupos de WhatsApp, que dão conta de supostos comportamentos suspeitos, abordagens a menores e alegadas tentativas de rapto em parques infantis e jardins públicos de vários pontos do país.
O tom destes avisos é quase sempre de urgência e sobressalto, gerando uma onda de partilhas automáticas por parte de pais e cuidadores preocupados. No entanto, o que as plataformas digitais mostram nem sempre coincide com a realidade reportada às forças de segurança.
O fenómeno do alarmismo digital
A facilidade com que um boato ou um mal-entendido ganha contornos de “ameaça real” na internet é um dos principais desafios apontados pelas autoridades. Fontes da Polícia Judiciária (PJ) e da Polícia de Segurança Pública (PSP) têm vindo a clarificar que a esmagadora maioria dos relatos que circulam online não tem correspondência com queixas formais e, quando investigados, revelam-se falsos alarmes, interpretações erradas de situações quotidianas ou pura desinformação clonada de incidentes antigos ou internacionais.
Especialistas em comunicação digital explicam que este tipo de conteúdo ativa um gatilho emocional muito forte — a proteção da infância —, o que desativa o filtro crítico dos utilizadores, levando-os a partilhar a informação “apenas por precaução”, mesmo sem confirmarem a sua veracidade.
Onde reside o verdadeiro risco?
Embora o espaço público continue a ser, estatisticamente, um local seguro para as crianças em Portugal, os dados oficiais de associações como a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) e o IAC (Instituto de Apoio à Criança) mostram que a criminalidade contra menores está, de facto, a aumentar, mas noutros palcos.
Os relatórios anuais indicam que o abuso sexual e a violência contra crianças cresceram significativamente, ocorrendo, porém, na esmagadora maioria das vezes “dentro de portas” — isto é, em contexto doméstico, institucional ou por parte de pessoas conhecidas e da confiança da vítima.
Por outro lado, o verdadeiro perigo de abordagem por desconhecidos mudou-se de forma drástica para o ambiente digital. O aliciamento de menores (grooming) através de videojogos online e redes sociais é a área que regista maior preocupação e um crescimento real de investigações criminais.
O apelo das autoridades
As forças de segurança reforçam que, perante qualquer comportamento genuinamente suspeito ou indício de crime, o procedimento correto nunca deve passar pela publicação imediata nas redes sociais, mas sim pela denúncia direta e formal às autoridades (através do 112 ou da esquadra local).
A partilha de fotos de cidadãos na internet com acusações infundadas, além de poder constituir um crime de difamação, gera um clima de desconfiança e pânico social desnecessário, prejudicando a verdadeira prevenção e o bem-estar das comunidades.


