O senso comum e a experiência prática de sapadores e silvicultores no Canadá indicavam há muito tempo que nem todas as florestas ardem da mesma forma. Quando as chamas encontram um bosque de álamos, a tendência é perderem intensidade. Esta reputação conferiu à espécie o cognome curioso de floresta de amianto, uma teoria que recebeu agora validação científica através de um amplo estudo macroestrutural.
Uma equipa de investigadores liderada por Flavie Pelletier, da Universidade McGill, analisou dados geoespaciais dos anos de incêndios mais destrutivos da história recente canadiana, incluindo a trágica temporada de 2023. O objetivo consistiu em testar se a resistência do álamo se mantinha estável mesmo sob as condições meteorológicas mais severas causadas pelas alterações climáticas.
Os mecanismos biológicos de proteção
O álamo destaca se como a árvore de folha decídua mais comum no território canadiano e possui características biológicas específicas que limitam a propagação do fogo:
- As suas folhas retêm elevados níveis de humidade o que dificulta de forma substancial a ignição da copa.
- A madeira e a casca desta espécie não possuem resina que é o composto altamente inflamável que ajuda as coníferas a queimar com maior violência.
- Os ramos da árvore desenvolvem se a uma altura considerável em relação ao solo impedindo que o fogo rasteiro suba facilmente para o topo da floresta.
Os cientistas advertem que um álamo isolado continua vulnerável devido à sua casca fina. Contudo a verdadeira capacidade de resistência manifesta se quando a espécie se encontra disposta em grandes blocos puros. Nestes cenários as chamas enfrentam uma escassez de combustível conífero inviabilizando o avanço rápido do incêndio.
Mapeamento por satélite confirma o efeito de borda
Para obter os resultados a equipa utilizou inteligência de dados e imagens captadas pelos satélites Landsat da NASA e Sentinel 2 da Agência Espacial Europeia. Estes mapas de satélite foram cruzados com os inventários florestais públicos do Serviço Florestal Canadiano.
O resultado revelou um claro efeito de borda: o álamo fixou se com uma frequência 2,42 vezes maior nos perímetros e margens exteriores das zonas queimadas do que no interior das áreas totalmente destruídas. Isto demonstra de forma matemática que o fogo progrediu de modo contínuo até colidir com os bosques de álamos onde acabou por estagnar ou abrandar de forma drástica. Em oposição espécies como o abeto e o pinheiro não registaram qualquer comportamento de barreira.
Os modelos matemáticos aplicados revelaram números expressivos sobre a contenção diária da área ardida:
- Em cenários com escassa vegetação de álamo os fogos consumiram em média cerca de 1770 acres por dia.
- Quando a presença de álamos cobria mais de um quarto do território a área ardida baixou para cerca de 1600 acres diários.
- Nos locais onde os álamos ocupavam mais de metade do terreno a progressão do incêndio desceu drasticamente para cerca de 550 acres por dia.
Independência sazonal e aplicações no ordenamento do território
A investigação de Flavie Pelletier desmitificou também a ideia de que os álamos perderiam eficácia na primavera por não terem folhas. Os dados demonstraram que o efeito protetor da barreira se manteve idêntico tanto na primavera com ramos despidos como no verão com a folhagem completa.
Estes dados trazem uma mensagem prática urgente para os gestores do território e planeadores urbanos. A preservação e o plantio planeado de álamos junto a zonas residenciais e infraestruturas críticas surgem como estratégias de segurança biológica altamente recomendáveis. A prática comercial de remover estas árvores para introduzir coníferas de maior valor de mercado revela se agora um risco acrescido para a segurança das populações locais.


