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Antidepressivo comum ajudou a inibir o crescimento de cancro em cobaias

O antidepressivo sertralina ajudou a inibir o crescimento de células cancerígenas em culturas de células e animais de laboratório (cobaias), concluiu uma nova investigação da Universidade de Leuven, na Bélgica.

De acordo com o novo estudo, cujos resultados foram publicados recentemente na revista científica American Association for Cancer Research, esta substância atua sobre um vício metabólico que permite o crescimento de diferentes tipos de cancro.

Utilizado para aliviar sintomas de ansiedade, este é um antidepressivo comum e comercializado em vários países, como é o caso Portugal, sendo também um dos mais prescritos nos Estados Unidos, frisa o portal IFL Science.

Em comunicado citado pelo portal Eureka Alert, os cientistas explicam que as células cancerígenas utilizam diferentes mecanismos biológicos para estimular o seu crescimento.

Em determinados tipos de cancro da mama, leucemia, cancro da pele, tumores cerebrais e de pulmão, entre outros, as células malignas produzem grandes quantidades dos aminoácidos serina e glicina para crescerem.

Esta produção estimula o crescimento das células cancerígenas ao ponto de estas se tornarem viciadas nestes dois aminoácidos – e é neste “vício” que o antidepressivo sertralina demonstrou atuar nos testes realizados com animais em laboratório.

“Este mecanismo é um alvo interessante porque as células cancerígenas são muito dependentes dele”, explicou o professor Kim De Keersmaecker, chefe do Laboratório de Mecanismos de Doenças do Cancro (LDMC), citado na mesma nota.

“As células saudáveis ​​usam este mecanismo em menor grau e também absorvem a serina e a glicina dos alimentos. Isso não é suficiente para as células cancerosas, no entanto, o que significa que estas começam a produzir mais. Se conseguirmos interromper esta produção, seremos capazes de combater o cancro sem afetar as células saudáveis”.

Cientistas acreditam no potencial da descoberta

Recorrendo a um banco de dados de medicamentos existentes, os cientistas analisaram várias substâncias e descobriram que o antidepressivo sertralina era o mais eficaz

“Outros estudos indicavam já que a sertralina tinha certa uma atividade anti-cancerígena, mas ainda não havia explicação para isso”, escreveram os autores no novo estudo.

“Neste estudo, pudemos demonstrar que a sertralina inibe a produção de serina e glicina, causando a diminuição do crescimento das células cancerígenas. Também descobrimos que esta substância é mais eficaz quando combinada com outros agentes terapêuticos. Em estudos com cobaias, constatamos que a sertralina em combinação com outra terapia inibe fortemente o crescimento de células do cancro da mama”.

Apesar de os resultados serem ainda fruto de procedimentos experimentais, a equipa acredita no potencial da descoberta. “Agora que conseguimos identificar este mecanismo para o cancro da mama, podemos começar a analisar outros tipos de cancro que também são dependentes da síntese de serina e glicina”, explicou ainda De Keersmaecker.

“Este é o caso, por exemplo, da leucemia de células T, mas também de certos tipos de cancro do cérebro, pulmão e pele. Quanto mais tumores pudermos identificar que são sensíveis à sertralina, melhores serão as perspetivas para ajudar os pacientes no futuro”.

E rematou: “Este são, obviamente, resultados de investigações experimentais, e não de estudos clínicos, mas podemos estar otimistas sobre o seu potencial. A segurança do uso da sertralina em humanos já está bem descrita, o que é uma grande vantagem”.