O que começou como um desejo de aventura automóvel transformou-se numa verdadeira lição de humildade e superação. Artur e Ricardo percorreram milhares de quilómetros, enfrentaram neve e calor extremo e entregaram mais de 130 quilos de bens solidários às crianças mais isoladas do deserto.
Para muitos, atravessar o deserto de Marrocos exige um veículo moderno de tração às quatro rodas. Para Artur, jovem natural de Cinfães, o desafio tinha de ser ainda maior. A ideia inicial passou mesmo por utilizar um jipe 4×4, por ser “mais difícil”, mas a procura por uma organização experiente que garantisse segurança levou-os ao Uniraid.
Foi aí que o conceito mudou: a aventura teria de ser feita num carro antigo e de tração simples. A escolha recaiu sobre um Toyota Corolla 1989, selecionado propositadamente por ser o ano de nascimento de Artur, aumentando a sensação de “adrenalina de ir com o coração nas mãos”.
Oito mil euros de preparação e uma amizade de oficina
O automóvel não partiu para as dunas sem um trabalho mecânico profundo. Artur investiu cerca de oito mil euros em material e preparação para garantir que o clássico estaria à altura da exigência do percurso.
Ricardo, proprietário de uma oficina de pintura, tornou-se peça fundamental no projeto. Acompanhou quase todas as noites de preparação do carro, movido apenas pela amizade. Quando um companheiro inicial desistiu à última hora, o convite para Ricardo integrar a equipa acabou por surgir naturalmente.
“Estávamos à vontade porque o carro estava muito bem preparado e levávamos muito material suplente, muito mesmo”, recorda o jovem de Cinfães.
Para evitar preocupações em casa, Artur também optou por moderar alguns detalhes quando explicou a viagem à mãe. Falou da experiência e da organização, mas deixou de fora pormenores como a ausência de GPS em certas etapas e as zonas sem qualquer rede telefónica.
Do frio do Atlas ao calor do Saara
A expedição decorreu entre 5 e 15 de fevereiro e colocou a equipa perante contrastes climáticos extremos. Durante a travessia da Cordilheira do Atlas, enfrentaram neve e temperaturas negativas.
“No domingo apanhámos neve até às três da tarde. Depois de passarmos o Atlas, as temperaturas subiram logo para os vinte e tal graus e acabámos nos 36”, explica Artur.
Durante toda a viagem, foi ele o único ao volante, o que lhe deixou até um bronzeado curioso apenas num dos lados do corpo.
Apesar das exigências do terreno, o Toyota demonstrou grande fiabilidade. Ainda assim, houve um episódio mecânico inesperado: a equipa levava amortecedores suplentes para a frente, mas foi um amortecedor traseiro que acabou por partir numa pequena incursão fora da rota.
Sem querer recorrer à assistência da organização para não prejudicar a classificação, os dois resolveram o problema no local em cerca de uma hora e meia, improvisando uma solução provisória que ajustaram definitivamente mais tarde.
Solidariedade: de passeio a missão com 137 kg de ajuda
Aquilo que começou como uma aventura automóvel ganhou rapidamente uma dimensão solidária. Artur e Ricardo transportaram 137 quilos de material, incluindo roupa, material escolar e brinquedos, destinados a crianças de aldeias isoladas do deserto.
A entrega desses bens tornou-se um dos momentos mais marcantes da viagem. Para os dois participantes, o contacto direto com as comunidades locais transformou a experiência numa memória muito mais profunda do que qualquer classificação ou desafio mecânico.
No final, a travessia pelas dunas de Marrocos acabou por provar que, mesmo num carro de 1989, a combinação de amizade, preparação e espírito solidário pode levar muito mais longe do que qualquer motor moderno.


