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Criança ficou sem boa parte do cérebro (e ninguém notou diferença)

(dr) Carnegie Mellon University

Conseguimos imaginar-nos a viver sem um braço ou sem uma perna, mas nunca sem cérebro. Há quatro anos, uma equipa de médicos removeu uma boa parte do cérebro de uma criança de seis anos e, ao contrário do que todos esperavam, o menino teve uma recuperação surpreendente.

Este é considerado um caso de sucesso. Há quatro anos, uma criança com epilepsia foi submetida a uma intervenção cirúrgica, isto porque os medicamentos que tomava diariamente não estavam a fazer qualquer efeito. Nessa cirurgia, foi-lhe removido cerca de um terço do cérebro para que, desta forma, ficasse livre de convulsões.

A criança – U.D. (nome fictício) – tinha apenas quatro anos quando sofreu as primeiras convulsões. O menino ficou com epilepsia depois de ter tido um tumor benigno no cérebro. Depois de uma série de crises, cada vez mais intensas, os médicos tomaram a ousada decisão de realizar uma lobotomia, dado que a medicação não estava a fazer efeito.

Esta intervenção cirúrgica, encarada como último recurso, envolveu remover todo o lobo occipital (que inclui o centro de processamento da visão) e a maioria do seu lobo temporal (que recebe os sinais visuais e auditivos), que representa cerca de um terço do hemisfério direito do cérebro do rapaz.

Cerca de 13 meses após a cirurgia, os cientistas quiseram perceber o impacto da lobotomia na criança de seis anos. Assim, nos três anos seguintes, seguiram a sua evolução através de imagens de ressonância magnética funcional e avaliaram-no em certas tarefas visuais e comportamentais.

Os cientistas chegaram assim à conclusão que o hemisfério esquerdo começou a trabalhar pelos dois hemisférios e a processar caras, objetos e palavras, ou seja, o cérebro da criança reorganizou-se de maneira a compensar algumas das funções perdidas com a remoção de certos lobos cerebrais.

“Estas descobertas fornecem-nos uma caracterização detalhada da plasticidade do sistema visual durante o desenvolvimento do cérebro das crianças”, diz Marlene Behrmann, autora do artigo científico, publicado recentemente na Cell Reports, e cientista da Universidade Carnegie Mellon.

“O único défice é que não pode ver todo o campo visual. Quando está a olhar para a frente, as informações visuais no lado esquerdo não são processadas, porque o lado direito recebe a informação visual do esquerdo, mas pode compensar isso ao virar a cabeça ou mover os olhos”, explica.

A criança, agora com onze anos, ficou sem outras funções como a receção da visão a 180 graus, o que fez com que deixasse de ver do seu lado esquerdo. Ainda assim, U.D. não tem convulsões, o seu QI é acima da média e as suas competências linguísticas são apropriadas para a sua idade.

Atualmente, as lobotomias são muito raras. No entanto, os cientistas argumentam que a impressionante recuperação de U.D. pode abrir a porta a mais procedimentos neurais, mesmo que haja ainda um longo caminho a percorrer.

Além disso, este trabalho é uma prova incrível do quão poderosoe adaptável – o cérebro humano é.