O mundo do entretenimento perdeu um dos rostos mais conhecidos do cinema e da televisão. Patrick Stewart, ator britânico que conquistou milhões de fãs ao interpretar o Professor Charles Xavier na saga “X-Men” e o capitão Jean-Luc Picard em “Star Trek: A Nova Geração”, morreu aos 86 anos, na quarta-feira (28). A notícia foi anunciada esta quinta-feira (29), através de um comunicado da família, que revelou que o artista enfrentava a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy.
A morte do ator desperta também uma reflexão sobre o contraste entre a ficção e a realidade. No cinema, Stewart interpretou uma das personagens mais inteligentes e poderosas do universo dos super-heróis, conhecida pelas suas extraordinárias capacidades mentais. Fora dos ecrãs, enfrentou doenças que comprometem precisamente o funcionamento do cérebro.
Para o neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela, que acompanhou a saga “X-Men”, esta perda assume também um significado particular. Membro da Triple Nine Society, sociedade internacional que reúne pessoas com níveis excecionalmente elevados de inteligência, reconhece uma curiosa associação simbólica entre o universo dos mutantes e as comunidades de indivíduos com capacidades cognitivas invulgares. Esta interpretação, que faz parte de uma espécie de lenda informal sobre a saga, não representa uma ligação oficial entre a obra e a sociedade, mas acrescenta uma dimensão pessoal à despedida de quem deu vida ao Professor Xavier.
Mas o que são as doenças que afetaram Patrick Stewart?
Embora sejam frequentemente confundidas, a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy apresentam características diferentes. Ambas provocam alterações progressivas no cérebro, comprometendo as funções cognitivas e a autonomia do doente, mas possuem mecanismos biológicos e manifestações clínicas distintos.
“A doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy são condições distintas, apesar de partilharem características relacionadas com o declínio cognitivo. Ambas são progressivas e ainda não têm cura, mas o diagnóstico correto é essencial para orientar o tratamento, controlar os sintomas sempre que possível e proporcionar o apoio adequado ao doente e à família”, explica o Dr. Fabiano de Abreu Agrela, pós-PhD em Neurociências e diretor científico do CPAH (Centro de Pesquisa e Análises Heráclito).
Alzheimer: quando as memórias começam a desaparecer
A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa que afeta principalmente a memória nas suas fases iniciais mais características. Está associada a alterações cerebrais que envolvem a acumulação anormal das proteínas beta-amiloide e tau, responsáveis por processos que prejudicam a comunicação entre os neurónios e contribuem para a sua degeneração.
Entre os primeiros sinais encontram-se esquecimentos frequentes, dificuldade em recordar conversas recentes, repetição de perguntas e problemas na realização de atividades habituais. Com a evolução da doença, outras capacidades, como a linguagem, a orientação, o raciocínio e o planeamento, também podem ficar comprometidas.
“A doença de Alzheimer começa habitualmente com alterações na memória recente, mas não se limita a esse aspeto. À medida que progride, outras funções cognitivas podem ficar comprometidas, afetando a autonomia e a capacidade de realizar atividades quotidianas.”
Segundo o neurocientista, a doença não compromete todas as regiões cerebrais em simultâneo.
“O Alzheimer não afeta todas as áreas do cérebro ao mesmo tempo. Geralmente, começa em regiões associadas à memória, como o hipocampo e o córtex entorrinal, essenciais para formar e recuperar recordações. Com a progressão, pode atingir áreas responsáveis pela linguagem, orientação espacial, raciocínio, atenção e tomada de decisões.”
“Em fases avançadas, várias regiões cerebrais podem ficar comprometidas, prejudicando os movimentos e as funções básicas. A distribuição e a intensidade das alterações variam consoante o estádio e as características individuais da doença”, afirma o Dr. Fabiano de Abreu Agrela.
Demência com corpos de Lewy: quando a perceção da realidade também se altera
A demência com corpos de Lewy apresenta características que vão além dos problemas de memória. A doença está associada à acumulação anormal de uma proteína denominada alfa-sinucleína, que interfere no funcionamento dos circuitos cerebrais responsáveis pela atenção, perceção, comportamento, sono e movimentos.
Uma das características mais marcantes é a oscilação do estado cognitivo. A pessoa pode apresentar-se aparentemente lúcida num determinado momento e manifestar confusão mental ou sonolência intensa algumas horas depois.
Podem também ocorrer alucinações visuais, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e alterações durante o sono, incluindo comportamentos em que o doente movimenta o corpo enquanto sonha.
“As flutuações cognitivas podem fazer com que a pessoa pareça estar lúcida e atenta num determinado momento e, horas depois, apresente confusão ou sonolência acentuada. As alucinações visuais também podem envolver imagens detalhadas de pessoas, animais ou objetos que não estão presentes.”
“Na demência com corpos de Lewy, destaca-se a combinação de alterações cognitivas com manifestações percetivas e motoras. A atenção pode variar consideravelmente e alguns doentes apresentam alucinações visuais e sinais semelhantes aos observados na doença de Parkinson. Reconhecer este conjunto de características ajuda a orientar a investigação clínica”, explica o Dr. Fabiano de Abreu Agrela.
O legado de Patrick Stewart
Com uma carreira construída ao longo de mais de seis décadas, Patrick Stewart tornou-se uma referência para diferentes gerações de espectadores. A sua interpretação do Professor Xavier, personagem que utiliza a inteligência, a empatia e o conhecimento para orientar outros mutantes, permanece entre as mais reconhecidas do cinema de super-heróis.
A notícia da sua morte chama também a atenção para doenças que afetam milhões de pessoas e respetivas famílias. Embora a doença de Alzheimer e a demência com corpos de Lewy ainda não tenham cura, compreender as suas diferenças permite identificar sintomas, orientar cuidados e procurar intervenções adequadas.
Stewart deixa um percurso marcado pelo teatro, pela televisão e pelo cinema, bem como personagens que permanecerão na memória dos seus admiradores.


