O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à segunda volta das eleições brasileiras de 2026 com a corrupção novamente entre os temas capazes de alimentar o debate político. Flávio Bolsonaro terminou a primeira volta com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Os dois disputam a Presidência na segunda volta.
Os números sobre integridade pública registados durante o terceiro mandato de Lula são desfavoráveis em diferentes indicadores, mas exigem uma distinção: nenhum dos principais índices disponíveis permite afirmar tecnicamente que este foi “o Governo mais corrupto” da história brasileira. O que os dados permitem afirmar é que o período acumulou recordes específicos de percepção, prejuízos sob investigação e casos de elevada dimensão financeira.
R$ 13,6 mil milhões em prejuízos apurados num único ano
O dado mais expressivo aparece nos próprios registos da Controladoria-Geral da União, órgão do Poder Executivo responsável pelo controlo interno e pelo combate à corrupção.
Em 2025, a CGU realizou 76 operações especiais e contabilizou R$ 13.606.019.108,62 em prejuízos apurados. É, com larga diferença, o maior valor da série publicada pelo órgão desde 2003. Em 2024, o montante tinha sido de aproximadamente R$ 393,7 milhões e, em 2023, de R$ 435,6 milhões. S
O próprio relatório oficial das contas presidenciais classifica 2025 como um marco na actuação anticorrupção e apresenta um gráfico em que o prejuízo apurado salta de R$ 394 milhões, em 2024, para R$ 13,606 mil milhões no ano seguinte. Entre as operações destacadas estão Sem Desconto, Estoque Controlado e Rejeito.
O número, porém, necessita de uma ressalva essencial: prejuízo apurado por uma operação não significa dinheiro desviado pelo Governo Lula nem prova que integrantes do Executivo tenham praticado os crimes investigados. Parte das investigações alcança administrações locais, empresas privadas, associações, servidores e esquemas iniciados em anos anteriores. O próprio volume de operações também demonstra actividade dos órgãos de fiscalização do Governo.
Brasil teve pior resultado histórico no índice internacional
Outro indicador colocou o país numa posição inédita durante o actual mandato. No Índice de Percepção da Corrupção referente a 2024, elaborado pela Transparência Internacional, o Brasil obteve 34 pontos e ficou na 107.ª posição entre 180 países, a pior nota e a pior colocação do país desde o início da série comparável, em 2012.
Em 2025 houve uma pequena recuperação para 35 pontos, mas o Brasil permaneceu na 107.ª posição, agora entre 182 países. A pontuação continuou a representar a segunda pior da série brasileira.
Também aqui existe uma diferença metodológica que não pode ser omitida: o índice mede percepção de corrupção no sector público, com base em fontes especializadas. Não conta crimes cometidos, condenações ou dinheiro efectivamente desviado. A própria Transparência Internacional alerta que o IPC não mede directamente a corrupção real nem resulta da soma de casos individuais.
A organização, contudo, fez críticas específicas ao período. Na retrospectiva de 2024, apontou entre os factores negativos o que classificou como silêncio do presidente Lula sobre a agenda anticorrupção, a renegociação de acordos de leniência e a permanência no Governo do então ministro das Comunicações, Juscelino Filho, após o seu indiciamento pela Polícia Federal.
Caso INSS tornou-se um dos maiores episódios do mandato
A Operação Sem Desconto colocou o Instituto Nacional do Seguro Social no centro de uma investigação de dimensão nacional. Polícia Federal e CGU investigaram descontos associativos não autorizados nas pensões e reformas de beneficiários.
As investigações abrangeram cobranças realizadas entre 2019 e 2024, período que atravessa tanto o Governo anterior como os dois primeiros anos do terceiro mandato de Lula. A Advocacia-Geral da União informou que os descontos investigados poderiam atingir R$ 6,3 mil milhões e pediu judicialmente o bloqueio de R$ 2,56 mil milhões de associações e empresas suspeitas.
A CGU afirmou que começou a investigar o crescimento das cobranças em 2023. Depois de analisar 29 entidades e entrevistar 1.300 pensionistas e reformados, o órgão verificou que a maioria dos entrevistados dizia não ter autorizado os descontos e que 70% das entidades examinadas não tinham apresentado ao INSS toda a documentação exigida.
O caso atingiu directamente a administração federal. Alessandro Stefanutto, então presidente do INSS e nomeado durante o Governo Lula, foi afastado por ordem judicial e posteriormente demitido pelo presidente em Abril de 2025, após se tornar alvo da operação.
A investigação continuou em 2026. Em Agosto, a Polícia Federal cumpriu 18 novos mandados de busca e apreensão para investigar suspeitas de lavagem de dinheiro, utilizando contas de terceiros, empresas e movimentações em numerário. A PF salientou que as condutas individuais e o destino dos recursos continuavam sob investigação.
O Estado brasileiro também iniciou o ressarcimento dos lesados. Em Fevereiro de 2026, o INSS informou ter devolvido cerca de R$ 2,9 mil milhões a 4,2 milhões de beneficiários, após 6,3 milhões de contestações.
Ministro deixou o Governo após denúncia da Procuradoria
O terceiro mandato de Lula também registou a primeira denúncia criminal apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra um integrante do seu primeiro escalão.
Juscelino Filho, então ministro das Comunicações, foi denunciado pela PGR ao Supremo Tribunal Federal em Abril de 2025 no âmbito de uma investigação sobre alegados desvios de emendas parlamentares. A Polícia Federal já o tinha indiciado em 2024 por suspeitas que incluíam corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Após a denúncia, Juscelino pediu a demissão do Governo.
Há uma distinção temporal relevante: os factos imputados a Juscelino referem-se ao período em que exercia mandato de deputado federal e são anteriores à sua entrada no Governo Lula. A sua defesa sempre negou irregularidades, afirmou a inocência do ex-ministro e sustentou que a indicação das emendas não o tornava responsável pela licitação ou execução das obras.
Um “recorde de corrupção” exige cuidado
Os dados permitem falar em recordes relacionados com o problema da corrupção, mas não permitem converter diferentes indicadores numa sentença de culpa contra um Governo.
Há três factos documentados: o Brasil teve em 2024 o seu pior resultado histórico no Índice de Percepção da Corrupção; a CGU registou em 2025 o maior montante de prejuízo apurado em operações especiais da sua série, R$ 13,6 mil milhões; e grandes investigações atingiram estruturas da administração federal durante o mandato.
Há também uma leitura que precisa de constar numa reportagem equilibrada: foi a própria CGU, integrante do Executivo federal, juntamente com Polícia Federal, Ministério Público e outros organismos, que identificou e investigou parte desses esquemas. O relatório governamental de 2025 apresenta o aumento das operações como resultado do reforço da acção de combate à corrupção, e não como uma medição do nível de corrupção produzido pelo Governo.
Às portas da segunda volta, os números são politicamente incómodos para Lula. Jornalisticamente, porém, a formulação precisa é outra: o actual Governo coincide com os piores resultados recentes de alguns indicadores de integridade e com investigações de dimensão financeira inédita, mas não existe uma métrica oficial que permita afirmar que “Lula bateu o recorde de corrupção”.


