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Notícias

Do cavaquinho ao ukelele

Last updated: 3 Abril, 2023 16:13
Redação Paivense
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Há quem diga que os povos das ilhas partilham um instinto comum, o de quem vive cercado por mar, longe dos compatriotas e restantes nações, que isolados dos mesmos desenvolvem uma cultura distinta e única.

O arquipélago Madeirense é o exemplo contemporâneo desse fenómeno, cuja população, desde o povoamento inicial da ilha no séc. XV tem deixado a sua marca no mundo, pois como o seu hino regional afirma “ … Madeira teu nome continua […] em teus filhos saudosos que além fronteiras de ti se mostram orgulhosos …”, um povo definido pelo trabalho árduo agrícola nos íngremes vales que “serpenteiam” pela ilha, assim como a pesca que é abundante nas suas águas, o seu estado de semi-isolamento forjou a sua identidade. Hoje em dia, a cultura Madeirense, embora não sendo muito distinta da Portuguesa continental, tem os seus traços únicos, valorizados e amados pelo seu povo assim como por quem lá passa, desde o sotaque único do arquipélago, as suas iguarias, destas, destacando-se pratos como a famosa “espetada madeirense” ou o “bolo do caco”, a origem destes sendo interligada inteiramente à vivência deste povo insular.

Embora sendo uma simples ilha no atlântico como as demais, o destino eventualmente teve outros planos para a região, pois o povo Madeirense além de boa comida e palavreado, tem também boa música a oferecer. Dispondo de instrumentos tradicionais Portugueses, os habitantes foram ao longo dos séculos desenvolvendo o seu próprio estilo musical. O “Bailinho da Madeira” é hoje um dos exemplos mais populares, sendo uma obra composta inteiramente por instrumentos musicais Madeirenses, o mais famoso destes sendo o “brinquinho” um instrumento muito peculiar e, inteiramente regional. No entanto, os instrumentos mais famosos e que levaram a elaboração deste artigo, são o “Cavaquinho Madeirense”, conhecido também como “Machete Madeirense”, e o “Rajão Madeirense” (uma guitarra de 5 cordas tradicional) assim chamado desde o séc. XIX. O Machete Madeirense sendo desenvolvido à imagem do seu contemporâneo continental, o Cavaquinho Português, divergindo apenas na técnica de fabrico, afinação e método, assim como o Rajão. Mas como é que esta peça originou o famoso ukelele Havaiano?

A história começa com a grande migração insular Portuguesa do séc. XIX, com destino as “ilhas sandwich” como eram conhecidas na altura. Esta migração tem por trás histórias de fome e miséria, acontece que até então a produção de vinho na Madeira tinha entrado em declínio, o pouco terreno arável que existia encontrava-se desgastado e pouco era o terreno habitável disponível. Estes fatores levaram a que muitos habitantes migrassem, algo não incomum na história Madeirense, mas o que se nota nesta migração  em específico é o número de emigrantes, chegando aos milhares.

Mas o que levará o monarca Havaiano a importar uma mão de obra tão distante? A resposta está no cultivo do açúcar, uma cultura emergente nas ilhas do pacífico, no entanto foi graças a Wilhem Hillebrand, um botânico Alemão e membro da corte Havaiana, que o povo Madeirense teve esta oportunidade de ouro. Wilhem trabalhava como agente de imigração para o rei Kamehameha V, contratando trabalhadores do sudeste-asiático para trabalhar nas plantações do Havai. No ano de 1876 durante a sua viagem pelo globo depara-se com o arquipélago Madeirense (na altura a região era conhecida pelo seu excelente tratamento de problemas respiratórios, Wilhem pretendia curar a sua esposa durante a sua estadia da ilha),  após passar um tempo escreve uma carta ao rei Havaiano com uma descrição da topografia e demografia da região, salientando as dificuldades económicas e qualidades de trabalho de campo do povo, como essas iriam ser cruciais para a cultura do açúcar, na sua carta o botânico descreve o povo Madeirense como honesto, sóbrio e trabalhador. Em 1872 circulou panfletos pela ilha de modo a recrutar possíveis migrantes trabalhadores, a sua missão foi bem-sucedida, tanto que entre 1878 e 1913 milhares de Madeirenses migraram para as ilhas pacíficas e lá edificaram suas famílias e habitações.

É neste contexto que 5 indivíduos surgem, João Fernandes e José Luís Correia, dois músicos e Manuel Nunes, Augusto Dias e José do Espírito Santo, sendo estes construtores, em 23 de Agosto de 1879 a embarcação “Ravenscrag” zarpa do porto do Funchal para Honolulu, na viagem é dito que João Fernandes trazia consigo o seu Cavaquinho, entretendo os seus camaradas na longa viagem com as suas músicas, ao chegar ao porto não tarda volta a pegar no instrumento, os locais ao ouvirem tal música encantaram-se tanto que apelidaram o instrumento de “ukelele” significando “pulga saltadora”, uma referência ao modo único de como é tocado. A partir daí João Fernandes foi pouco a pouco introduzindo o cavaquinho na cultura Havaiana, primeiro com as danças populares, em seguida criando um conjunto com Augusto Dias e José Luís Correia, e também, em 1884 desde a chegada de Manuel Nunes que este constrói uma oficina musical onde, o instrumento é produzido. O fabrico com o tempo irá incorporar tipos de madeira nativos, nomeadamente “kou” e “Koa” de maneira a se integrar ainda mais na cultura Havaiana, com o tempo conquistando o coração dos seus habitantes.

Com a entrada do novo milénio, o adorado instrumento fez parte de grandes êxitos mundiais, artistas como Israel Kamakawiwo’ole e Jack Shimabukuro, popularizaram o ukelele nas suas músicas que também conquistaram os nossos corações, obras como “Somewhere over the Raimbow” transmitem a harmonia e felicidade, que só um instrumento com origens na pérola do atlântico pode transmitir.

Autoria do texto: Estudante de história na Universidade do Porto, Celso Barros

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