Projeto brasileiro de defesa da infância transforma-se em movimento de consciencialização social e reforça debate sobre segurança infantil, riscos digitais e prevenção da violência contra menores
Portugal passa agora a integrar o percurso de um dos mais relevantes movimentos lusófonos de consciencialização sobre proteção infantil, segurança digital e prevenção da violência contra crianças e adolescentes.
Idealizado pelo comissário da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Daniel Viana, o projeto “Proteja Os Seus Filhos – Em Defesa de Quem Mais Precisa” nasceu da experiência direta do profissional na Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima e tornou-se, no Brasil, uma referência nacional no debate sobre prevenção, proteção da infância e responsabilidade coletiva.
Mais do que uma obra literária, o projeto consolidou-se como um movimento social que reúne diferentes áreas da sociedade em torno de um propósito comum: proteger crianças e adolescentes num mundo cada vez mais exposto à violência, à negligência emocional e aos perigos digitais.
“Não estamos a levar apenas um livro para Portugal. Estamos a levar uma conversa urgente sobre proteção infantil numa era digital”, afirma Daniel Viana.
Um projeto construído por quem vive diariamente a realidade da proteção infantil
A origem de “Proteja Os Seus Filhos” nasce do contacto direto com casos reais de violência infantil, abuso, negligência, sofrimento psicológico e vulnerabilidade emocional de crianças e adolescentes.
Durante a sua atuação profissional, Daniel Viana acompanhou de perto histórias que acabariam por marcar profundamente a construção do projeto.

Segundo o comissário, houve uma frase ouvida logo no início da sua trajetória nessa área que nunca mais saiu da sua memória:
“Aqui, você vai conhecer a maldade humana.”
Foi exatamente naquele momento, explica, que surgiu a necessidade de reagir de outra forma.
“Se existe tanta gente a fazer o mal, então precisamos unir quem ainda acredita no bem. Foi daí que surgiu o ‘Proteja Os Seus Filhos’.”
O projeto começou a ganhar dimensão à medida que diferentes profissionais se identificavam com a causa e aceitavam fazer parte da iniciativa.
Daniel Viana conseguiu reunir vozes da área jurídica, segurança pública, saúde, educação, comunicação social e ativismo social, criando aquilo que define como “um mosaico de especialistas unidos pelo mesmo propósito”.
Entre os participantes estão desembargadores, promotores, advogados, delegados, investigadores, policiais especializados no combate aos crimes contra crianças, psicólogos, médicos, peritos, jornalistas e ativistas que transformaram experiências pessoais de dor em exemplos de força e superação.
A obra conta ainda com a participação simbólica da jovem Valentina, descrita pelo idealizador do projeto como “um olhar puro e verdadeiro sobre a importância da infância”.
Ao todo, são 28 autores reunidos numa construção coletiva baseada em experiência prática, responsabilidade social e prevenção.
“Cada autor trouxe a sua experiência, a sua dor, a sua esperança. O resultado foi muito maior do que um livro. Tornou-se um movimento coletivo em defesa da infância.”

Portugal enfrenta hoje os mesmos desafios
A ligação entre o projeto e Portugal surge precisamente porque os problemas discutidos na obra refletem uma realidade cada vez mais presente também na sociedade portuguesa.
Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística e do Comité Português da UNICEF, Portugal registou em 2024 mais de 3.237 crimes contra crianças e jovens, o número mais elevado da última década.
Os dados apontam ainda que:
● diariamente, três crianças são vítimas de abuso sexual em Portugal;
● três menores sofrem violência doméstica todos os dias;
● houve um aumento de 31,9% no apoio a crianças e jovens vítimas de crime entre 2022 e 2024;
● mais de 30 mil ocorrências de violência doméstica contra menores foram registadas em 2024;
● 18,6% da população portuguesa adulta afirma ter sofrido algum tipo de violência durante a infância.
Para Daniel Viana, estes números demonstram que o tema deixou de ser um problema isolado ou distante.
“Muita gente pensa que abuso infantil é um problema distante, mas não é. Portugal também enfrenta casos de abuso, violência doméstica, exploração online e negligência infantil. O projeto não fala apenas de um país. Fala da responsabilidade de todos nós enquanto sociedade.”
O perigo já não está apenas nas ruas
Um dos principais focos do movimento está relacionado com os riscos digitais enfrentados atualmente por crianças e adolescentes.
Segundo Daniel Viana, o perfil das ameaças mudou profundamente nos últimos anos.
“Hoje, o perigo já não está apenas nas ruas. Está também dentro das casas, através dos telemóveis, dos jogos online, das redes sociais e do silêncio que muitas vezes impede crianças de pedir ajuda.”

O projeto alerta para o crescimento de fenómenos como:
● cyberbullying;
● sextorsão;
● aliciamento online;
● abuso sexual digital;
● Tráfico infantil e ciberpedofilia
● violência psicológica silenciosa;
● dependência emocional das redes sociais;
● exposição precoce de menores na internet.
Os dados portugueses acompanham essa tendência.
Informações reunidas no próprio dossiê do projeto indicam que Portugal registou um aumento superior a 40% nos incidentes de segurança informática em 2025, sendo que 62% das denúncias estavam relacionadas com abuso sexual de menores.

Além disso:
● a Linha Internet Segura registou aumento de 39% nos contactos;
● 9,3% dos jovens portugueses afirmam já ter sido vítimas de cyberbullying;
● especialistas alertam para o crescimento da vulnerabilidade emocional de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Um movimento sobre presença, escuta e responsabilidade coletiva
Ao contrário de abordagens centradas apenas na punição criminal, “Proteja Os Seus Filhos” aposta fortemente na prevenção, na educação emocional e na reconstrução da presença familiar.
O livro reforça que muitos sinais de sofrimento infantil aparecem em pequenos comportamentos ignorados no dia a dia:
● isolamento;
● alterações emocionais;
● medo excessivo;
● agressividade;
● silêncio repentino;
● dificuldade de comunicação;
● dependência extrema do ambiente digital.
Especialistas envolvidos no projeto alertam também para as consequências profundas e duradouras que situações de abuso, negligência e violência podem provocar ao longo da vida de uma criança.
Entre os impactos mais recorrentes estão:
- depressão;
- ansiedade;
- automutilação;
- dependência química;
- comportamentos autodestrutivos;
- exploração sexual;
- dificuldade de construção emocional e afetiva;
- e, em casos mais graves, ideação ou tentativa de suicídio.

Segundo os autores da obra, muitas destas consequências permanecem silenciosas durante anos, refletindo-se na vida adulta através de traumas emocionais, dificuldades de relacionamento e sofrimento psicológico contínuo.
O projeto reforça que a prevenção, a escuta ativa e o acompanhamento emocional são fundamentais para interromper ciclos de violência e proteger o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes.
Segundo Daniel Viana, o projeto procura lembrar algo essencial que muitas famílias acabaram por perder no ritmo acelerado da sociedade atual.
“Este livro fala sobre prevenção, sobre escuta, sobre limites, sobre amor. Mas, acima de tudo, fala sobre presença. Porque não existe política pública, nem tecnologia, nem lei que substitua o olhar atento de quem ama e protege.”
O idealizador da obra defende que a proteção da infância não pode ser responsabilidade exclusiva das autoridades.
“O ‘Proteja Os Seus Filhos’ é um elo entre a polícia, a justiça, a escola, a medicina e as famílias. É um convite para que cada um de nós volte a ocupar o seu lugar na defesa da infância.”
Cada capítulo da obra representa, segundo o autor, “um gesto de compromisso”.
“Cada voz do livro é uma parte da sociedade a dizer a mesma coisa: nós não aceitamos perder mais uma criança para o silêncio.”

Mais do que um livro
O movimento reforça que a proteção infantil precisa deixar de ser um tema debatido apenas depois das tragédias.
A proposta central da obra passa pela prevenção, pela consciencialização social e pela criação de ferramentas acessíveis às famílias, escolas e instituições.
Para Daniel Viana, esse é precisamente o motivo pelo qual o projeto encontrou ligação imediata com Portugal.
“O ‘Proteja Os Seus Filhos’ não é apenas uma obra editorial. É um movimento de consciencialização. Um projeto construído por pessoas que decidiram unir experiência, conhecimento e humanidade em defesa da infância.”
E conclui:
“Este não é um livro para ficar numa estante. É um livro para ser vivido, partilhado e levado adiante. Porque, no fim de contas, proteger a infância é proteger o futuro.”


