O que teve início em 2022 como um encontro regular entre quatro colegas apaixonados por “metal oxidado”, tornou-se num dos projetos associativos mais ativos de Penafiel. Daniel Silva, a figura que se recusou a deixar o sonho desaparecer quando o grupo inicial se desfez, organiza agora o maior acontecimento da trajetória da associação: o Vintage Car Festival 2026. Entre a recuperação “à maneira tradicional” e a obtenção de um espaço histórico em Duas Igrejas, o foco é evidente: proteger o legado automóvel enquanto se valoriza a identidade da região da Sopa Seca.
O fascínio por veículos clássicos é, para muitos, um hábito solitário de oficina. Para Daniel Silva, de 36 anos, é um propósito de conservação histórica e social. Natural de Duas Igrejas, Penafiel, Daniel é um dos criadores da associação “Clássicos Terra da Sopa Seca”, uma iniciativa que surgiu da amizade e que hoje se prepara para dar um avanço significativo com a abertura da sua sede própria e a realização da terceira edição de um certame que promete atrair entusiastas de todo o território. Do círculo de amigos à perseverança de um impulsionador
O percurso oficial da associação começa em 2022. Na época, quatro aficionados, Daniel, Hélio, Ricardo e José, partilhavam o interesse por automóveis antigos e decidiram juntar esforços. No entanto, o rumo colocou à prova a continuidade da iniciativa. Por razões profissionais, três dos fundadores tiveram de deixar o grupo: uns emigraram, outro seguiu a profissão de piloto, e a disponibilidade desapareceu.
Daniel ficou sozinho ao comando. “No ano passado não conseguimos organizar o encontro anual porque não tinha companhia. Cheguei a ponderar desistir”, admite. Foi o apoio de conhecidos e a vontade de manter viva a referência da terra que o motivaram a prosseguir. O empenho trouxe resultados em março de 2026, com a oficialização da associação e uma conquista simbólica: a sede institucional, instalada no antigo edifício da Junta de Freguesia de Duas Igrejas. “Foi a cereja no topo do bolo. Tivemos um apoio enorme da Junta de Freguesia. Agora temos o nosso espaço para acolher os amigos”.
Uma oficina com cinco narrativas e uma saudade
No plano pessoal, o conjunto de Daniel Silva reflete a sua diversidade. Com cinco automóveis, três operacionais e dois em processo de recuperação, Daniel não escolhe um preferido, mas sim um veículo para cada ocasião. Da emblemática Renault 4L, que utiliza para assistir a ralis, a um modelo desportivo para passeios de verão, ou um clássico mais elegante para casamentos, a sua garagem percorre as décadas de 60, 70, 80 e 90.
No entanto, existe uma ausência que o seu acervo não consegue colmatar: o Fiat Uno 45S que pertenceu ao pai. “Procurei por ele, queria restaurá-lo por uma razão emocional, mas já nem existia. Não era pelo valor do automóvel, era pela história”. Esta sensibilidade define a sua perspetiva: “Um ícone não é apenas um veículo antigo, é um fragmento de memória. É sentir o carro, escutar o motor e admirar os pormenores. É uma ligação única ao passado que desperta nostalgia”.


