A sub-região do Tâmega e Sousa consolida-se, ano após ano, como um dos territórios mais fustigados pelo flagelo dos incêndios rurais em Portugal Continental. Segundo os dados oficiais mais recentes do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), esta Unidade Territorial (NUTS III) mantém-se firmemente no pódio nacional no que toca ao número absoluto de ignições, partilhando os lugares cimeiros com a Área Metropolitana do Porto e a região do Alto Minho.
No último balanço anual consolidado, o Tâmega e Sousa registou um total de 423 incêndios rurais. O cenário torna-se ainda mais alarmante quando analisado à escala municipal: em anos recentes, até oito dos 11 concelhos que compõem a Comunidade Intermunicipal (CIM) do Tâmega e Sousa — com destaque para Penafiel, Amarante, Marco de Canaveses, Cinfães e Felgueiras — integraram simultaneamente a lista negra dos 20 municípios com maior atividade de fogo em todo o país.
O Paradoxo da Eficácia: Muitos Fogos, Pouca Área Ardida
Apesar do elevado número de ocorrências, os relatórios da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) revelam um detalhe crucial: entre 84% a 88% das ignições registadas na região não ultrapassam um hectare de área ardida.
Este indicador reflete, por um lado, a prontidão e a eficácia das corporações de bombeiros voluntários locais e das equipas de sapadores florestais, cujo ataque inicial musculado tem travado tragédias de maior dimensão. Por outro lado, expõe a persistência de comportamentos de risco e o elevado número de focos de incêndio numa região caracterizada por uma forte pressão humana sobre a floresta.
O Perigo do “Fogo Periurbano”
Especialistas classificam o regime de incêndios no Tâmega e Sousa como essencialmente “periurbano”. Ao contrário dos grandes incêndios do interior do país, que consomem milhares de hectares contínuos de floresta despovoada, nesta sub-região as chamas deflagram na chamada interface urbano-rural.
A forte dispersão da população, com habitações, indústrias e quintas profundamente misturadas com manchas florestais fragmentadas, eleva exponencialmente o nível de perigo. Nestas circunstâncias, qualquer pequeno foco de incêndio coloca imediatamente em risco vidas humanas, habitações e infraestruturas, exigindo uma mobilização imediata de meios aéreos e terrestres.
Concelhos como Castelo de Paiva, embora fiquem muitas vezes fora do topo estatístico de ignições puras, ilustram perfeitamente esta vulnerabilidade geográfica. O concelho, marcado por um relevo acidentado e por uma mancha contínua que liga a concelhos vizinhos como Arouca, sofre ciclicamente com a severidade de fogos que alastram além-fronteiras, ameaçando frequentemente povoações como Bairros.
Prevenção e Vigilância Redobradas
Com as alterações climáticas a prolongar os períodos de seca extrema e a elevar as temperaturas de verão, as autoridades continuam a reforçar os apelos à população. O uso do fogo para a queima de sobrantes agrícolas ou florestais e a realização de fogueiras continuam a ser as principais causas apontadas para o elevado número de ignições na região.
Para este período crítico, a AGIF e o ICNF relembram que a realização de qualquer queima carece de autorização obrigatória através da plataforma oficial do Estado ou das autarquias locais, sendo a vigilância comunitária e o cumprimento escrupuloso das restrições as armas mais eficazes para retirar o Tâmega e Sousa desta estatística negra.


