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Crónica: O fosso entre o futebol português e o topo da Europa IV

Esta semana termino a minha reflexão sobre o fosso entre o futebol português e o topo da Europa. Tal como referi nas crónicas anteriores, na minha opinião a falta de aposta no futebolista português teve consequências nefastas para o nosso futebol.

Começamos por descuidar a formação, voltamos a ela quando as finanças dos clubes, não permitiram comprar atletas de qualidade de outras nacionalidades, mas, nessa altura, também os clubes deixaram de ter argumentos financeiros para manter os melhores atletas que saem da sua formação.

Um exemplo claro que comprova que não é insignificante este ponto de vista é o caso do FC Porto campeão europeu. De facto as duas últimas conquistas da liga dos campeões para o futebol português foram em 1987 e 2004. Ambas foram conquistadas pelo FC Porto, curiosamente, ou não, em 87 e em 2004 os portistas fizeram alinhar no onze inicial que disputou essas finais oito portugueses. Em 1987 entraram de início Mlynarzcik, Celso e Madjer como únicos não portugueses, em 2004 foram excepções Carlos Alberto, Deco e Derlei. Outra nota interessante é que em ambos os casos as equipas eram orientadas por treinadores portugueses, Artur Jorge e José Mourinho.

Outro factor que contribui para este fosso é a inevitável falta de dimensão do mercado português, as verbas que o futebol português movimenta são interessantes a nível nacional mas insignificantes a nível internacional. Segundo o site Transfermarket os atletas que participam na Liga Nos tem um valor de mercado de 883 M€, se compararmos com La Liga (4.69 mil M€), Premier League (6,68 mil M€), Ligue 1 (2,81 mil M€) ou Bundesliga (3.06 mil M€), facilmente concluímos que o trabalho dos clubes portugueses para conseguir diminuir o fosso é uma longa travessia, as ferramentas não são as mesmas.

A existência dos três eucaliptos (FC Porto, SL Benfica e Sporting CP) é algo que contribui e de que forma para a fragilização do produto nacional, sem competição ao mais alto nível dentro de portas os clubes grandes acabam também por não trabalhar sempre em exigência máxima, preparando-os assim para os confrontos europeus. Um dos claros exemplos da predominância dos eucaliptos é a incompreensível falta de direitos televisivos centralizados, ao contrário das grandes potências europeias, no futebol português adoptou-se a ideia peregrina que a melhor opção seria cada clube fazer o seu negócio…

Para fechar o “ramalhete” de vectores que determinam a nossa pequena dimensão futebolística falta abordar a cultura desportiva e os quadros competitivos. Quanto à cultura desportiva, é limitador o facto de contarem-se pelos dedos de uma mão os clubes que tem adeptos no nosso país, nos ditos clubes de menor dimensão a grande maioria tem simpatizantes que em primeiro lugar apoiam um dos chamados grandes e apoiam em segundo lugar o clube mais próximo de si. Como pode um clube crescer sem massa adepta?

Os quadros competitivos devem igualmente ser motivo de grande reflexão. Em Portugal vive-se uma fobia a “divisões”, hoje em dia temos um gigantesco problema chamado campeonato nacional quando poderíamos ter uma segunda, terceira e porque não quarta divisões, tal como existe noutros países. Desta forma a constante subida e descida de escalões trariam maior competitividade às diferentes divisões.

Esperemos que emails, apitos, toupeiras, envelopes… deixem o lugar para o futebol antes que seja tarde de mais para nós.

Saudações Desportivas

Vitor Moreira – Treinador UEFA A + Elite Youth

Crónica: O fosso entre o futebol português e o topo da Europa III – O decréscimo de portugalidade na liga portuguesa


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