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Crónica: O fosso entre o futebol português e o topo da Europa

Parte I – O caso Bosman

Entre os agentes ligados ao futebol e até entre os apaixonados da modalidade, a
preocupação com o constante aumento da distância entre o futebol português e o
futebol do big five (Espanha, Inglaterra, Itália, França e Alemanha) é latente. No
entanto isto não é novidade e a sensação que dá é que apenas assalta as mentes
portuguesas quando defrontamos clubes desses países nas competições europeias.
Com efeito, e na minha opinião, tudo começou em 1995, quando o tribunal Europeu
deu razão a Marc Bosman, este acordão mudou o paradigma do futebol mundial.

Vivemos numa era em que os atletas, que chegam esta época ao escalão sénior,
nasceram em 2000. Cresceram já com os efeitos desta regulamentação, da mesma
forma que para estes o mundo sem telemóveis não faz sentido e ter dois canais de
televisão é algo surreal, também não tem cabimento que um atleta em final de contrato
não seja livre de escolher o seu futuro. Não foi sempre assim.

Afinal quem foi Jean Marc Bosman? Trata-se de um futebolista de segunda linha. Em
1990 encontrava-se em fim de contrato com o RCF Liége, o clube belga oferece-lhe
um novo contrato, mas com um corte de 75% no seu salário. O atleta recusa renovar.
Entretanto, um clube da 2ª divisão francese, DunKerque, manifesta interesse no atleta,
mas perante o valor alto que os belgas exigem não chegam a acordo. No meio desta
confusão o atleta acaba suspenso pela federação belga e decide partir para uma
guerra judicial que durou 5 anos.

O Tribunal Europeu, em 1995, dá razão ao atleta e obriga as federações de futebol a regerem-se pelos princípios gerais europeus do trabalho.

A partir dessa data todos os atletas ficam livres de assinar por outro clube a
partir do momento em que faltem menos de seis meses para terminar o contrato em
vigor. Este acórdão, termina igualmente com as restrições ao número de atletas
comunitários que cada clube podia utilizar.

As principais consequências desta lei Bosman podem ser elencadas nos seguintes
pontos:

  • Os jogadores passam a ser livres para controlar o seu próprio destino
  • As transferências a custo zero passaram a ser comuns (segundo os dados da
    liga em Portugal e na época 15/16 representaram 81,2% do total)
  • O dinheiro que o futebol movimenta cresceu exponencialmente
  • O futebol caminhou para a universalização, quem se recorda de uma premier
    liga com o futebol “kick and rush” tão britânico e agora não é nada que se
    pareça
  • As ligas de menor dimensão ficaram sem capacidade para ver as maiores estrelas nos seus campeonatos, exemplo claro é a liga holandesa, hoje em dia um campeonato nada comparável aos fabulosos anos 80 e 90.
  • A América do sul deixou de segurar as suas pérolas
  • A competitividade por títulos diminui, será cada vez mais raro observar clubes de menor dimensão surpreender os chamados tubarões. De 96 a 2016 os vencedores da champions foram de 5 países diferentes, nos vinte anos anteriores foram de 11. Na próxima semana continuarei a abordar esta questão aproximando do futebol português.

Saudações Desportivas

Vitor Moreira – Treinador UEFA A + Elite Youth


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