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Crónica: “Não matem os velhinhos”

O tema da eutanásia é sensível e nem sempre estamos preparados para o tratar da forma mais neutra sem colocarmos à flor da pele os nossos sentimentos em detrimento da racionalidade.

Li e ouvi muitos comentários pró e contra a aprovação desta medida de Morte Medicamente Assistida, apelidada de eutanásia. Da argumentação mais insensata e desinformada sobre o tema prendeu-se com um cartaz que uma jovem mostrava às portas da Assembleia da República “Não matem os velhinhos”. Por outro lado, alguns argumentam que deve-se apostar mais nos cuidados paliativos em detrimento desta lei.

Com a maior das honestidades e lucidez intelectual, hoje, não tenho informações suficientes para decidir se eu, em circunstância de sofrimento profundo associado a incapacidades preferia usufruir da Morte Medicamente Assistida. Acrescento que, se eu fosse médico, também não sei se teria a capacidade de concretizar o desejo de alguém que pretende por termo à vida com assistência médica. Mas não foi isso que foi decidido na Assembleia da República.

O que foi hoje a votos foi a possibilidade de alguém querer por termo à sua vida com apoio médico o possa fazer, desde que devidamente sustentado e, com a maior lucidez.

Esta lei não pretende promover a morte, não pretende que sejam anulados os apoios aos paliativos, não pretende “matar velhinhos”. Esta lei pretende apenas dar a oportunidade a cada um de nós poder decidir por termo à sua vida quando não tiver condições físicas para o fazer.

A eutanásia é a garantia de um direito individual no memento final da vida. A eutanásia não deverá

Hoje, posso por termo à minha vida, nada me impede. Mas naquele dia que o meu corpo não for capaz de movimentar-se, naquele dia que depender constantemente de terceiros porque não me mexo, naquele dia que estiver em sofrimento profundo, nesse dia que a minha consciência se mantiver inalterada mas com o corpo “inútil”, nesse dia, pretendo ter a oportunidade de decidir livremente se posso ou não morrer com assistência médica.

Apesar da não aprovação, a lucidez da informação sobre a eutanásia foi abrangente, é apenas uma questão de tempo até aprovação.

Manuel Mendes


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